Joaquim “mãos de tesoura”

Futuro ministro da Fazenda é conhecido pela habilidade em conter gastos públicos desde a era Lula

iG Minas Gerais |


Joaquim Levy é considerado culto e bem-humorado por ex-colegas
DIDA SAMPAIO
Joaquim Levy é considerado culto e bem-humorado por ex-colegas

BRASÍLIA e RIO DE JANEIRO. Certa noite, ao jantar com uma das principais lideranças do PT na área econômica, a presidente Dilma Rousseff perguntou ao interlocutor quem estaria disposto a assumir o desafio de recuperar uma economia tão cheia de problemas. “O Joaquim certamente aceitaria”, foi a resposta. “Se o quadro fosse mais ameno, não teria graça para ele”, acrescentou o interlocutor. Gostar de um desafio é uma das características do engenheiro naval Joaquim Levy, 53, futuro ministro da Fazenda. Ele também carrega a fama de perfeccionista e workaholic.

Quando era secretário do Tesouro Nacional no governo Lula, Levy ganhou o apelido de “mãos de tesoura” por conter gastos públicos. Trabalhava madrugada adentro, a ponto de deixar ternos no gabinete para não ter que ir em casa trocar de roupa. Levy muitas vezes preferia espremer seu 1,93m e dormir no sofá do gabinete.

Renato Villela, que foi adjunto e, posteriormente, sucessor de Levy na secretaria de Fazenda do Rio, lembra de um episódio inusitado. “Uma vez, estávamos trabalhando numa quarta-feira. Quando deu 21h, ele falou que tinha que sair para um compromisso. Quando liguei o rádio para ouvir o jogo de futebol, ele começou a comentar o jogo do Botafogo. Fui testemunha auricular”, brincou.

Em 2015, porém, o time do coração não deve interferir no serão das quartas-feiras, pois foi rebaixado para a série B. Considerado uma pessoa bem-humorada por quem já trabalhou com ele, amigos dizem que o carioca Joaquim Levy só perde o humor quando o clube é alvo de chacotas.

Até de madrugada. Na rotina de trabalho do futuro ministro, responder e-mails e pedir dados à equipe no meio da madrugada são comuns, tanto no governo federal quanto no tempo em que ficou à frente da Secretaria de Fazenda do Rio e do Bradesco Asset Management (Bram), de onde saiu para substituir Guido Mantega.

Alguns dos adjetivos usados para descrevê-lo por ex-subordinados são “genial”, e “fantástico”. Isso, porém, não significa que ele não cobre ou não seja exigente. De acordo com um assessor dos tempos do Tesouro, para convencer o chefe de alguma ideia com a qual ele não concordasse era preciso suar a camisa: “Não é que ele seja teimoso, mas ele é muito bem preparado. Por isso, se for para discordar dele, é bom ter argumentos na ponta da língua”.

Sorriso nervoso. O novo ministro também tem uma característica marcante que já o deixou em maus lençóis. Quando está nervoso, Levy congela um sorriso no rosto, que às vezes é confundido com deboche. Em 2005, durante um depoimento do então ministro da Fazenda Antonio Palocci na Câmara dos Deputados, o deputado Rodrigo Maia fazia suas perguntas a Palocci quando notou que o secretário do Tesouro sorria. Furioso, Maia disse: “O senhor está achando graça no que eu estou dizendo, doutor Levy?”

Como o secretário não disse nada, o deputado cobrou providências ao presidente da comissão, deputado Geddel Vieira Lima. Este, por sua vez, repreendeu Levy, advertindo-o para que não mais desrespeitasse o nobre deputado pefelista. O problema é que Levy não estava rindo de Rodrigo Maia e, sim, mostrando o tal sorriso nervoso. “Ele entendeu em algum momento que aquele sorriso é um cartão de visita. Ele não sorri daquele jeito na vida real”, disse um amigo.

Com ou sem sorriso enigmático, Levy está agora no lugar almejado por alguém que é conhecido como fiscalista ferrenho: no governo. Amigos e colegas são unânimes em afirmar que sua determinação para manter as contas sob controle é única. Enrola quem pede verba, briga feio e argumenta.

Para a economista Monica Baumgarten de Bolle, a ascensão de Levy, com a escolha para a Fazenda, representa o mesmo que sair da última fileira da classe econômica para o assento número um da primeira classe.

A austeridade fiscal defendida pelo futuro ministro está longe da unanimidade. “Ele tem princípios e visões semelhantes ao que o mercado financeiro defende. Teremos um ano difícil pela frente. Todo mundo fala de globalização, mas não incluem em seus modelos. A China está desacelerando, a Europa é um volume morto que não vai a lugar nenhum, travada em cima da austeridade expansionista. São visões que até não provaram sua eficácia. Estamos resvalando para uma recessão”, afirma Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp.

Divergências antigas. Em seu tempo de Tesouro, Levy tinha divergências com a cúpula do Banco Central. O então diretor de Política Econômica do BC, Afonso Beviláqua, era seu principal desafeto. Na época, a Fazenda criticava a política de juros altos do BC e Levy criticava Beviláqua, considerado o mais conservador da equipe de Henrique Meirelles. As divergências ficaram explícitas quando Levy afirmou que os juros projetados pelo mercado naquele momento não eram condizentes com os indicadores econômicos e insinuou que o BC estava confortável com a situação.

O ministro Palocci teve que intervir e decidiu publicar uma nota repreendendo publicamente Levy e alegando que não havia “desconforto no Ministério da Fazenda com relação à política de juros praticada pelo Banco Central”. Agora, o quadro é outro. O futuro ministro usa constantemente o pronome “nós” para falar da unidade entre os ministérios da Fazenda, do Planejamento e do Banco Central.

Na secretaria de Fazenda do Rio, que assumiu em 2007, Levy contou com o apoio de Sérgio Cabral para blindá-lo das pressões políticas. Suas ações eram consideradas inegociáveis. O Estado estava quebrado, com computadores velhos, sistema ultrapassado e mal havia papel nos banheiros. “Quem ficava mais irritado com a contenção de despesa no Rio era a base política do governo, que precisa de uma pequena despesa, de um favor aqui e acolá, e isso não existia. Agora, vai ser curioso ver como ele vai lidar com as pressões do partido da base do governo. Esfriar CPIs que podem dar até em impeachment vai custar caro, e esse dinheirinho do varejão não vai estar disponível”, comentou uma pessoa que trabalhou com ele na secretaria.

“Ele é um cara que não tem enrolação, não tem embromação. Faz, pensa, elabora, faz a estratégia e executa. O estilo do Joaquim é de ter resultado rápido. Não é de esperar muito tempo, não. E ele não tem medo de ser impopular. Não tem o menor problema de brigar pelos pontos em que acredita”

Monica Baumgarten de Bolle -  Economista

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