Sobre o que não deu certo

“Em Família”, despedida de Manoel Carlos da teledramaturgia, amargou a pior audiência da história da faixa das 21h

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

“Em Família”. Com roteiro fraco e elenco sem sintonia, despedida de Manuel Carlos não agradou
Paulo Belote
“Em Família”. Com roteiro fraco e elenco sem sintonia, despedida de Manuel Carlos não agradou

A foto ao lado de “Em Família” mostra aspectos que facilmente aludem à própria novela: o desencontro dos olhares pode ser comparado ao roteiro, enquanto a expressão forçada de Gabriel Braga Nunes parece indicar a frágil interpretação de grande parte do elenco.

Para a grande maioria dos críticos, o folhetim deixou muito a desejar. “O Manoel Carlos (autor da novela) sempre teve problemas com atraso na Globo e isso fez com que fosse impossível avaliar a qualidade da obra e mudar alguns cursos da trama”, analisa o crítico e especialista de TV Flávio Ricco.

Somado a isso, havia outros tantos problemas em relação à estrutura da novela, entre os quais o crítico destaca um. “Nesses tempos, não é permitido para novelas terem ‘barrigas’, ou seja, passar dias sem que não aconteça algo impactante, que chama a atenção do espectador”, comenta ele. O resultado: “Em Família” registrou a pior audiência de uma trama da faixa nobre da Globo, com média de 30 pontos.

Já “Império”, a sucessora, conseguiu erguer um pouco a audiência, mas mesmo assim é fato que o formato passa por uma crise. Para o diretor do site Vcfaz.tv, Ricardo Marques, o problema talvez não esteja nos moldes tradicionais e constantes. “O mundo mudou, e a forma que acessamos os diversos meios de entretenimento também mudou. Não só a audiência das telenovelas caiu, mas toda a programação perdeu audiência. Hoje, há muito mais variedade. Há 20 ou 30 anos, as telenovelas eram praticamente a única forma de diversão no fim de noite brasileiro. Hoje, temos a TV por assinatura, os serviços OTT como Netflix, Clarovideo e Now, por exemplo, que permitem uma melhor sintonia”, explica.

Os reality shows – com exceção do “MasterChef” – também não foram bem neste ano. “O ‘SuperStar’ começou com diversas falhas, um formato que pareceu não ter sido bem entendido no início e um time de jurados beirando o nonsense em vários momentos. Já o ‘The Voice Brasil’ tem um formato interessante, teve uma estreia surpreendente com a vitória de Ellen Oléria, mas se perdeu na segunda edição e, na terceira, a emissora parece ter optado pela segurança na manutenção do formato e participantes. Ficou óbvio. Já sabemos que Daniel costuma fugir das músicas sertanejas, que Claudia tentará causar de alguma forma para si, que Carlinhos fará aqueles discursos longos, chatos e repetitivos”, analisa Marques.

O ano de 2014 também serviu para confirmar como a Record, mesmo com altos investimentos nos últimos anos, não consegue fixar-se como uma concorrente à altura da Globo. “A emissora busca o primeiro lugar de audiência a qualquer custo, desprezando que audiência é hábito, mas, às vezes, se esquece de fazer o básico: alocar de forma coerente seus produtos na grade de programação. Além disso, apela para um tom mais popularesco que rende até boa audiência, mas não é suficiente para fidelizar o telespectador”, opina Marques.

Comédias. Em relação aos humorísticos, “A Grande Família”, destaque desde que sua nova versão foi ao ar, em 2001, despediu-se do público. Sob a chancela de Guel Arraes, a produção marcou época na emissora – foram 13 anos comandando as noites de quinta-feira da Globo. Com roteiro inteligente e, ao mesmo tempo, popular, e um elenco de peso encabeçado por Marco Nanini, Marieta Severo, Pedro Cardoso, Guta Stresser e Lúcio Mauro Filho, “A Grande Família” certamente deixará um vazio no humor da emissora carioca. A próxima a se despedir da grade de programação deve ser “Tapas & Beijos”. “Um sinal que a emissora quer renovar séries humorísticas, mesmo aquelas de sucesso”, aponta Ricco.

Neste ano, também vimos os humorísticos “CQC” e “Pânico”, ambos da Band, perderem fôlego e elenco. No próximo ano, retornam com nova equipe na tentativa de se salvarem e voltarem a ter maior repercussão, com pautas e assuntos diversificados.

Para ficar de olho. Para Ricardo Marques, muitos programas que passam desapercebidos por grande parte dos telespectadores que merecem maior destaque. “Daria mais ênfase a programas mais leves das tardes, que trazem alguma informação como é o caso do ‘Estúdio i’, da GloboNews, e o ‘Mulheres da TV’, da TV Gazeta”, recomenda Ricardo Marques.

Gays em alta

Beijo. Com algum tempo de atraso, a Globo liberou o beijo entre duas pessoas do mesmo sexo em suas novelas. Primeiro, em “Amor à Vida”, entre Mateus Solano e Thiago Fragoso. Na atração seguinte, “Em Família”, foi a vez de Giovana Antonelli e Tainá Müller. Para o especialista Ricardo Marques tudo isso faz parte da venda de um produto. “A TV Globo trabalha bem seu marketing quando o assunto é beijo gay. Negar a demonstração de afeto (ou mesmo anunciar uma possibilidade de ocorrer) sempre gera expectativa, audiência e muita discussão”, comenta.

Gays em baixa

Encobertos. No ar pelo SBT desde novembro, na faixa das 16h, “Sortilégio” é mais uma novela mexicana cheia de traições, amores, vingança e, desta vez, um casal de bissexuais. O público brasileiro, no entanto, não pode desfrutar dessa história, pois as cenas em que os personagens Ulisses (Julián Gil) e Roberto (Marcelo Córdoba) trocam olhares ou conversam sobre o assunto foram cortadas ou os diálogos reconstruídos na versão dublada. Segundo a emissora, a edição foi realizada para se adequar ao horário indicativo em que a novela é transmitida.

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