Horizontes

iG Minas Gerais |

acir galvao
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117 anos. Mocinha, se comparada às “matronas” do Velho Continente. Nem criança nem adulta; nem tão grande nem tão pequena. Um certo descompasso em sua caminhada. Veias congestionadas antes da hora, carecendo de providências rápidas para que seu sangue continue a fluir. Minha Belo Horizonte, com seus horizontes nem tão belos assim. Rodeada por montanhas, nem tanto “alterosas”. Na frente, rochas cobertas de verde. Atrás, lascas de minério, consumidas no dia a dia feito folhas de alcachofras, levadas pelos trens da vida. Trens de verdade, e não aqueles que saem com naturalidade de nossa boca, dos mineiros da gema, que falam uai, sô... Preguiça de terminar a frase inteira. “Você” que vira cê, procê, cumé... Ao contrário do que pensam os paulistas, não falamos “belzonte” porque nossa Belo Horizonte não dá para resumir, é grandiosa no nome e na potencialidade. Cidade onde nasci, cresci e tive minhas filhas. Onde vi ruas e bairros surgirem, casas e prédios nascerem, onde existiam fazendas. Pedras do Mineirão, retiradas da pedreira de minha antiga casa, responsável por várias obras da região. Lembro-me da sirene tocando. Hora de explodirem dinamites e recolher a meninada, pois o perigo era iminente. Cidade onde vi o Pirulito da Savassi ser transportado para a praça Sete. No mesmo lugar que, quando o Galo ganhava, íamos comemorar. No fim dos campeonatos, num ônibus lotado, gostava de ir – muitas vezes, sem ter como avisar minha mãe. Época sem celulares e de escassos orelhões quebrados. O time dizia que daria chope de graça, chope que nunca vi na vida, mas valia a alegria de dividir com a torcida o título de campeão. Em que vi a Feira Hippie sair da praça da Liberdade e ir para a avenida Afonso Pena. Muitos protestos para uma atitude sensata, corajosa, pois a feira, genuína e verdadeiramente artesanal, carecia de espaços livres. Sem estragar gramados rodeados por palmeiras imperiais e jardins, de onde brotavam fontes de águas coloridas. Em que subíamos a Afonso Pena com amigos vindos de fora. Mostrava a paisagem do Mirante, com parada obrigatória na rua do Amendoim. Se o carro subia sozinho? Sei lá, para dizer a verdade, nunca percebi esse “milagre”. Mas era bom passear por ali, perto das montanhas, parando na praça do Papa para comer pipoca e jogar conversa fora, sem medo de ser assaltado. Naquela época, assaltantes e marginalidade pertenciam a um futuro – bem mais próximo do que imaginávamos. Cidade em que presenciei as grades do Palácio serem derrubadas, não por revolta popular, mas para se ver, pela última vez, o saudoso Tancredo Neves. Para bem dizer a verdade, também ali estavam presentes garotas entusiasmadas, somente para ver o neto – o jovem Aécio. Eu estava lá, na fila, e pude ouvir a gritaria quando a grade caiu. Cidade de muitas faces: a de tristeza aparente, como muitos imaginam ser nossos morros, onde pipocam favelas, chamadas conglomerados. O que as pessoas não sabem é que, apesar das adversidades, ali, naquele cenário complexo, mora também a felicidade. Esta que, por vezes, é maior que a dos bairros cercados de muros, medos e inseguranças, onde as crianças, diferentemente daquelas de minha infância, mal sabem jogar bola. Estão proibidas de ir pra rua, não conhecem os filhos da casa vizinha; de dentro do quarto, por meio de um computador, descobrem o mundo. Sozinhas. Do outro lado, meninos que soltam pipas ao ar livre, jogam futebol com traves de pedras, proseiam sentados na calçada. E cedo aprendem a se virar... Na vida, com a vida. Cidade que chora lágrimas enlameadas. Assoreadas pela junção de córregos poluídos. Pampulha que já foi mais bela, mais limpa e respeitada. E hoje corre o risco iminente de um adensamento criminoso. E tudo o que me resta é uma ponta de saudades daqueles velhos horizontes.

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