Novas e tristes notícias sobre Dresden

iG Minas Gerais |

Já escrevi nesta página sobre Dresden, uma belíssima cidade da Alemanha Oriental, capital da Saxônia, também conhecida como “a Florença do Elba”. Por sorte, apesar dos desnecessários bombardeios que sofreu nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, ainda preserva muito de seus tesouros barrocos. Vem de lá, nos últimos dias, a triste notícia de surgimento de um movimento dos autointitulados “patriotas europeus contra a islamização do mundo ocidental”. Realizam passeatas semanais, que juntam dezenas de milhares de alemães, contra a presença entre eles de imigrantes de religião muçulmana. Segundo as notícias, as pessoas que se engajam nos protestos fogem do estereótipo dos neonazistas, que, aliás, são expressivos naquela região. O NPD, partido político ultradireitista, tem representação no Parlamento estadual, e a torcida organizada do time local de futebol, o Dínamo-Dresden, é conhecida por suas palavras de ordem racista. Os novos manifestantes são famílias de classe média e bons níveis de educação. Seus cartazes não são abertamente ofensivos. Infelizmente, isso não significa ilustração. Não sabem, por certo, que a chamada civilização ocidental, uma mescla da cultura judaico-cristã com a civilização grega, fruto da alta escolástica, se deve, em grande medida, a um médico e filósofo muçulmano que viveu na Espanha há mais ou menos mil anos. Falo do mouro Arrevóis, responsável pelo resgate do pensamento de Aristóteles e sua divulgação na Europa Ocidental. Por ironia, um dos maiores difusores dos estudos aristotélicos levados a efeito por Arrevóis foi o monge dominicano alemão Alberto Magno, tutor de são Tomás de Aquino. Ignoram, igualmente, que dezenas de sábios de origem árabe, seguidores de Maomé, são responsáveis pelo desenvolvimento da matemática moderna, uma ciência muito cultuada na Alemanha e que contribuiu sobremaneira para que a terra de Leibniz, Gauss e tantos outros se tornasse a potência tecnológica que é nos dias atuais. A Alemanha tem uma tradição de organizar presépios vivos no período de Natal. Circula no anedotário de lá que, sob influência desse movimento xenófobo e preconceituoso, não estariam aceitando para representar a Sagrada Família atores de pele morena, imigrantes de origem palestina, sem-teto ou grávidas solteiras... Tudo isso é muito triste. Esse mal-estar espraia-se por toda a Europa sem que os europeus se perguntem qual a responsabilidade histórica de cada bastião da civilização europeia pela invasão dos “novos bárbaros” em busca de paz e oportunidades. Entre nós, lamentavelmente, reverberam essas ondas de exclusão, nos dias em que, imersos no consumismo desvairado, entre Papais Noéis e perus assados, esquecemo-nos que estamos a comemorar a ameaça a tal civilização com a chegada de um pobre menino palestino, sem-teto, filho de uma mãe solteira (aceito como filho por um carpinteiro), expulso de sua própria terra pelo terror dos poderosos. Que o Natal possa, de fato, significar esperança de paz e oportunidades para todos. Sem discriminação.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave