Guloseimas e pratos calóricos não ajudam a melhorar humor

Crença nos benefícios da “comfort food” motivou pesquisa financiada pela Nasa

iG Minas Gerais | Jan Hoffman |

Saúde. Se deliciar com guloseimas, como as expostas pelo artista chines Sang Dong no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) da praça da Liberdade em novembro, não fazem diferença quando bate uma tristeza ou a pessoa está lidando com sentimentos “difíceis”
Uarlen Valério
Saúde. Se deliciar com guloseimas, como as expostas pelo artista chines Sang Dong no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) da praça da Liberdade em novembro, não fazem diferença quando bate uma tristeza ou a pessoa está lidando com sentimentos “difíceis”

New York. Está triste, estressado? Deixe de lado um pouquinho o biscoito recheado ou a tigela de macarrão com queijo e prepare-se para mais um golpe: o poder curativo da comida de conforto (comfort food, em inglês) sobre as emoções pode ter sido superestimado.

Claro, o ânimo melhora rapidinho logo depois de comer sua bomba de carboidratos favorita, mas não mais do que se tivesse comido uma barrinha de cereal – uma opção agradável, mas que dificilmente se encaixa na categoria de “conforto”. Em um estudo publicado no jornal “Health Psychology”, pesquisadores da Universidade de Minnesota descobriram que, mesmo que você não tente se consolar com comida, o humor acaba voltando ao normal por si mesmo.

“O pessoal tem essa crença de que alimentos altamente calóricos ajudam a eliminar ou acabar com os sentimentos ‘difíceis’, mas o uso da palavra ‘conforto’ agregada aí implica numa relação que pode não existir”, explica Kelly D. Brownell, reitora da Faculdade de Políticas Públicas Terry Sanford da Duke, que estuda obesidade e comportamento e não participou da pesquisa.

“Comfort food” é geralmente a comida que nos dá um prazer especial ou levanta a moral quando bate o desânimo. É extremamente pessoal, já que envolve rituais, lembranças e gostos específicos. As mulheres, em geral, preferem os doces; já os homens vão de itens salgados e mais substanciosos, mas é claro que há muitas exceções, inclusive no fato de que nem todo mundo aprecia as opções mais gordurosas (embora o fã clube do salsão tenha poucos membros).

Missão em Marte. A pesquisa de Minnesota foi financiada pela Nasa com o objetivo de melhorar a disposição dos astronautas nas missões espaciais, já que a tendência é que emagreçam fora da Terra, pois o trabalho é estressante e a comida não é lá tão apetitosa. Traci Mann, professora de psicologia e líder do trabalho queria saber se a comida de conforto realmente melhora o astral da pessoa – descoberta que poderia ajudar os astronautas durante uma viagem a Marte, por exemplo.

Embora as pesquisas tenham mostrado que consumir alimentos com alto teor de gordura, açúcar ou sal ativam o sistema de recompensa do cérebro, Nicole M. Avena, neurocientista e professora assistente da Escola de Medicina Icahn da Mount Sinai que escreve sobre disfunções alimentares, disse, por e-mail, que o estudo de Minnesota sugere que uma resposta neutra como essa pode não se traduzir em mudanças de humor mensuráveis e diz que seria interessante aplicar o mesmo teste a obesos ou a pessoas que consomem regularmente comidas de conforto para comparar os resultados.

Elissa Epel, professora da Universidade da Califórnia em San Francisco, observou que a forma como as pessoas estão condicionadas a reagir aos alimentos gostosos é muito particular, mas que mesmo que eles ajudem a mudar o ânimo, o efeito é transitório e mais curto que o das calorias densas.

O estudo teve suas limitações, não só porque o clima negativo foi induzido no laboratório: a teoria não foi testada, por exemplo, entre aqueles que sofriam dores de amores. Larry Christensen, professor de psicologia da Universidade do Sul do Alabama que estuda os desejos alimentares, destacou que o desânimo dos participantes foi um fenômeno de curta duração e acrescentou que quem busca conforto na comida geralmente é por se sentir triste ou deprimido há mais tempo.

Para Traci Mann, o estudo ajudou a desmistificar o conceito de que “comfort food” só serve como compensação emocional.

“Não se deve dizer que quer comer alguma coisa porque ela o faz se sentir bem e ameniza o sofrimento, qualquer que seja ele. O pessoal procura justificativas para comer bobagens. Toma o sorvete e pronto! Não precisa tentar dizer que é mágico. É só gostoso”, conclui ela.

“O pessoal tem essa crença de que alimentos altamente calóricos ajudam a eliminar os sentimentos ‘difíceis’, mas a palavra ‘conforto’ agrega uma relação que pode não existir” Kelly D. Brownell - pesquisadora

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