Zé das Mamonas

iG Minas Gerais |

Na verdade, meu nome é Zé. “Só Zé?” Era só Zé, depois ficou Zé das Mamonas. “Mamonas é apelido?” Não sei, não tenho registro de nada, nem sei como me comecei. Não tenho eira nem beira, qualquer nome serve, então é Zé. “E por que das Mamonas”? Moço de Deus, aí é que tá o “bedelis”... Sempre fui pobre e besta. E sempre vivi cá no meu só, até que recebi um lote de terra advinda das terra de ninguém. O princípio desse patrimônio eu não “alembro”, sei que as terrinha cresceu comigo. E no crescê, passei de ninguém pra possero, daí conheci “cumpanheiros”, andei pelos carrascais da vida e minhas terra cresceu. “Como cresceram? Terras não crescem, aumentam. Você invadiu?” Não, comprei de gente igual eu, a origem é a merma, eu penso. “Como assim?” Sei lá... Como ninguém reclamô, virei proprietário, sempre trabalhano muito, sem aperreá os outro e sem invadi nada. Cresci por “riba” de terras devoluta e depois legitimada por direito. Quando dei fé, estava bem de vida: era fazendero e criava gado, tirava leite e as terrinha virô fazenda. Mas no dia de São João de um ano quarqué fui pulá fogueira pra virá cumpadre de um meu vizinho rico. Todo mundo que participava do cumpadrio tinha que levá uma prenda, e eu levei uma gamela de milho de pipoca. A “pé de bode” roncô a noite intera, e nós dançava e proseava sem saber nome uns dos outro. Eu achava que nós tudo era da mesma laia. Num era. Nós tava era bêbado do mermo jeito. E foi aí que meu futuro apareceu. “Como assim?” O pau-d’água que conversô comigo a noite toda, só depois é que fiquei sabeno, era sô Lula... O home falô a noite toda de um tal de “biodisel” feito de mamona. Daí é que ficô tratada a visita de um ténico, acho que do Banco do Brasil, pra fazer um financiamento pra plantá mamona e fazê o tal de “biodisel” lá em casa. E enfiei a cara no dinheiro do banco, queles fala que é do povo. Fiquei deveno até as cueca que eu não uso por gastura nas partes baixa. “E daí?” Daí que, depois de seis ano trabalhano feito um jegue, transformei a fazenda em cultura de mamona e nunca mais ouvi falá em mamona. Biodisel passô a sê o nome de um jumentim meu, o “rolex”, porque rincha sempre ao meio-dia. Fico o dia intero ouvino mamona pipocá no mato. E do fi duma... do sô Lula, só tenho notiça pelo rádio. Dia desses sonhei que encontrei cum ele e nós falamo: Dotô Lula, eu sô aquele besta das pipoca, da festa das gamela, alembra? “Não... Não sei de nada... Como é seu nome?” Agora é Zé das Mamonas, mas pode me chamá de Zé Besta. “Não diga isso não. Vou te ajudar, vou mandar uma amiga da Petrobras, Graça Foster, te procurar”. Ela compra tudo, até mamona, só não compra cana. Num diga Dotô, meu cumpadre Valdivino prantou cana até nas pedra da serra, pra fazê álcool, e vai chupá essa tomem? Não carece mais de ajuda não, dotô, amanhã é Natal, é festa no mundo e, aí, o Menino Deus me ajuda. “Mas, então, o que você quer?”Quero sê só Zé...

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