Terrorismo com causa divina

Filme “Êxodo: Deuses e Reis” faz leve revisão do mito de origem judaica

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Equívoco. Filme escorrega na maquiagem caricatural e preconceituosa que transforma atores brancos em egípcios
Photo: Kerry Brown
Equívoco. Filme escorrega na maquiagem caricatural e preconceituosa que transforma atores brancos em egípcios

Em uma de suas melhores músicas, “Highway 61 Revisited”, Bob Dylan conta sem papas na língua a real história entre Deus e Abraão. Deus mandou que Abraão matasse seu filho. Abraão falou “cê tá me zoando?”. Deus disse “não”, e Abraão “oi?”. E Deus respondeu “faz o que você quiser, Abe, mas na próxima vez que você me ver, fica esperto”.

No fim, era tudo uma grande pegadinha do Mallandro. Brincadeirinha. Porque o Deus do velho testamento era um babaca. Perverso, cruel, vingativo. E como a estreia de amanhã “Êxodo: Deuses e Heróis” mostra, Ele foi também o primeiro grande terrorista: fazendo demandas e, quando elas não eram atendidas, tocando o terror.

O filme segue a conhecida jornada de Moisés (Christian Bale). Criado pelo faraó Seti (John Turturro), ele é expulso do Egito pelo filho dele, Ramsés (Joel Edgerton), quando sua origem hebreia é descoberta. Anos depois, Moisés volta e liberta seu povo da escravidão, com a ajuda das sete pragas lançadas por Deus e fazendo a famosa travessia do Mar Vermelho.

Mas a visão do diretor Ridley Scott para a famosa história bíblica, na verdade, é a de Deus subjugando dois homens – um que acha ser um deus (Ramsés) e outro que não acredita em deuses (Moisés). E isso fica abundantemente claro na imagem que conclui a icônica travessia do Mar Vermelho.

Não por acaso, Deus é retratado no filme como um menino. Uma criança tirânica e inflexível que, mesmo motivada por uma boa causa (libertar seu povo da escravidão), não pensa duas vezes antes de lançar mão de pragas sobre todo o povo egípcio para mostrar a Ramsés quem é o verdadeiro deus. Em um filme monocromático, de tons beges e marrons, essas pragas trazem o vermelho do sangue à tela pela primeira vez em mais de uma hora de projeção. E Scott não hesita em associar esses atos aos atentados terroristas de fundamentalistas religiosos hoje, que, o cineasta sugere, não encontraram inspiração para seu lema “os fins justificam os meios” em qualquer lugar.

Essa leitura só é possível porque, se o “Noé” de Darren Aronofsky era alguém que leu errado os desígnios de seu Deus, o Moisés de Bale e Scott é a tradução exata do significado de “israelita”: aquele que debate com Deus. Apesar de ser o protagonista no papel, no filme ele é mais uma espécie de bússola moral presa no meio do confronto entre Ramsés e Deus, questionando os atos e posições extremistas dos dois lados.

Essa leve releitura, mostrando um Ramsés bem menos tirânico e caricatural e um Moisés bem menos idealizado que em produções como “Os Dez Mandamentos” e “O Príncipe do Egito”, é o único motivo de ser da produção, que conta uma história exaustivamente explorada no cinema. Conhecido como um mestre visual – com designs de produção que construíam universos temáticos ao mesmo tempo que criavam suspense, inquietação e perigo em filmes como “Alien” e “Blade Runner” –, Scott acrescenta muito pouco ao material que filma.

As dimensões do palácio de Ramsés representam bem seu ego e seu poder, mas já foram vistos em outros mil longas. O mesmo pode ser dito dos efeitos da travessia do mar, coerentes com o tom realista de “Êxodo”, sem chamar muita atenção. O 3D, porém, empobrece muito a experiência, com a escuridão da tela tornando quase impossível enxergar algo além do rosto dos atores.

O pior elemento de “Êxodo”, contudo, é a maquiagem. Usar atores brancos como personagens de outras etnias é algo que Hollywood faz desde que o mundo é mundo, mas a caracterização do filme não é só exagerada: ela é feia e de mau gosto, reforçando as acusações de racismo sofridas pelo longa antes da estreia. Para um cineasta do naipe de Scott, é um pecado mortal, digno da ira divina – se bem que, como o filme mostra, Deus não se importa muito com egípcios.

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