Artista recria santos no barro

Nova mostra vai contar com imagens carregadas de insinuação erótica

iG Minas Gerais | Ana Elizabeth Diniz |

A interpretação do artista de são Bartolomeu, um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo. Ele foi um viajante e atuou na Índia, Armênia, Irã, Síria e, por algum tempo, na Grécia
Fotos Ana elizabeth diniz
A interpretação do artista de são Bartolomeu, um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo. Ele foi um viajante e atuou na Índia, Armênia, Irã, Síria e, por algum tempo, na Grécia

Sua primeira professora de modelagem foi sua mãe. “Aprendi a fazer caretas quando empelotava o sabão de cinza que ela fazia. Minhas tias eram filhas de Maria, estavam sempre envolvidas com a decoração da igrejinha de são José, são Sebastião e Nossa Senhora da Penha. Lembro-me dos andores dos santos com lírios e copos-de-leite brancos que eu e minha mãe plantávamos, do barulho rouco das matracas cortando o silêncio, o rosto ensanguentado de Cristo guardado embaixo do altar-mor da igreja matriz com a coroa de espinhos. São imagens tão fortes, que uso nos meus trabalhos até hoje”, relembra o artista plástico Hélio Siqueira, 64, nascido em Ouro Fino, em Minas Gerais.

Formado em letras, com várias viagens internacionais de estudos e alguns prêmios nacionais, Siqueira mora em Uberaba onde tem um ateliê/galeria. Sob sua tutela, está o Museu de Arte Sacra de Uberaba, que funciona na Igreja de Santa Rita, construída em 1854.

Educador, produtor cultural, ele pinta, esculpe, desenha e dá forma à argila da qual surgem imagens de santos impressionantes, fortes, reinterpretadas. “Minha vida foi marcada pela religião. Os altares, a igreja, a cenografia das missas, os ritos sagrados, os paramentos litúrgicos misturados com coisas do folclore que eu havia vivenciado, tudo vem à tona como turbilhão quando estou trabalhando”, conta.

Imagens gravadas em sua memória e que ressurgem em sua tela mental impregnando os santos de passado, de história. Cada santo é reverenciado com muito mistério e caracterizado com um objeto. São Sebastião foi flechado e amarrado no tronco, são Pedro carrega as chaves do céu, são Geraldo é pálido como uma caveira, santa Bárbara vem com a torre, santa Catarina com a roda, Nossa Senhora da Piedade com o Cristo morto nos braços. Santa Ana, a avó de Jesus, com os dez mandamentos, Nossa Senhora da Soledade com o coração ardendo em chamas.

Para o historiador da arte Fernando Pedro, a obra de Siqueira tem uma expressão muito distante do piegas e bem próxima do expressionismo artístico somente visto com tanto élan na produção mineira da arte barroca do século XVIII.

“Ao abordar o tema e a expressão em nossos dias, com sensibilidade e alma contemporâneas, o artista nos apresenta a história da arte, atualiza o tema adormecido no alfabeto da arte atual, demonstra a atualização da iconografia e percorre o caminho da emoção, comoção, devoção, paixão e tradição. Em suas mãos, uma nova representação da iconografia artístico-religiosa é construída no século XXI em Minas Gerais”, comenta Pedro.

A profusão de referências religiosas da infância e o fato de ter sido ex-seminarista deram ao artista um conhecimento bem íntimo dos santos, tema recorrente em suas exposições.

A exposição de estreia, “Território de Louvor e Glória”, aquela que o consagrou, aconteceu em 1995, no Palácio das Artes. “Ela se dividia em duas partes: a profana, que contemplava tudo que ficava fora da igreja, e a sacra, com a revisitação dos altares barrocos, as ânforas, vasos e castiçais. Voltei no tempo e trouxe formas primitivas presentes na civilização etrusca, no renascimento com a história das proporções e no Vale do Jequitinhonha. As formas não eram totalmente reveladas”, diz o artista.

Na sequência, veio a exposição “Santas Loucuras”, em 1997, na galeria Elizabeth Nasser, em Uberlândia, em que retratava os santos de forma meio alegórica, criando, por exemplo, a Nossa Senhora das Flores, Nossa Senhora dos Anjos e a Nossa Senhora do Brasil, com crianças a seus pés, simbolizando abandono, fome e desproteção.

Depois, veio a exposição “Santos Todos Nós”, realizada no Museu Murilo Mendes, em Juiz de Fora. “Ela mesclou o que existe dos santos em cada um de nós que, mesmo imperfeitos, nos sacrificamos por tantas coisas”, define Siqueira.

Há quatro anos, ele está envolvido na produção da próxima exposição, “300 santos”, que deve ser apresentada em 2015. A inspiração veio em uma mesa de bar quando estava em Ouro Preto comemorando os 300 anos da cidade. “São santos que têm sentimento, é o humano escondido no barro. Todos eles carregam uma insinuação erótica. Foi a forma mais clara que encontrei para representar que eles nascem quase todos do mesmo jeito. Confesso que tenho um pouco de receio pela forma que eles serão vistos, uma vez que os santos preservam o sentimento mais primitivo das formas”, entrega.

“O artista, ao mesmo tempo em que transita pelo imaginário católico, pela iconografia popular, dialoga com os ídolos indígenas e africanos, o que resulta na representação de figuras que se encaixam ou não na iconografia religiosa conhecida ou que subvertem a idolatria católica”, comenta a educadora Janaína Melo.

Para ela, o artista “ao transferir para os santos de devoção doméstica deformações de cunho expressionista e geradoras de corpos grotescos e detalhamentos quase indefinidos, parece nos alertar que a divindade não se precisa pela sua aparência física ou pela vida material, mas pela sua essência e pela transcendência do espírito”.

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