Submundo portenho de Arlt

“A Vida Porca”, romance inaugural do argentino Roberto Arlt, ganha nova tradução que terá lançamento nesta segunda

iG Minas Gerais | Deborah Couto |

Underground. Filho de imigrantes, Arlt falava espanhol pouco culto e usava de dialeto em seu texto
Wikimedia Commons
Underground. Filho de imigrantes, Arlt falava espanhol pouco culto e usava de dialeto em seu texto

A editora Relicário lança nesta segunda, no Pizza Sur da Savassi, uma nova edição de “A Vida Porca”, romance do argentino Roberto Arlt . A obra, (uma tradução de “El Juguete Rabioso”, 1926) seu primeiro romance conhecido e o mais autobiográfico de seus textos, conta a história de Silvio Astier, um adolescente do submundo portenho do começo do século XX. Filho de imigrantes, Astier comete crimes por meio dos quais ascende à cultura letrada da qual foi excluído.

Nascido em 1900, Arlt era, ele mesmo, filho de imigrantes (pai prussiano e mãe austríaca) numa Buenos Aires que tinha grande parte de sua população formada por eles. Sua literatura revela essas origens pouco ortodoxas. “Há dois aspectos marcantes na obra de Arlt que revelam essa característica”, diz Davis de Oliveira Diniz, tradutor de “A Vida Porca”, que também assina o posfácio da publicação. “O escritor não teve uma formação acadêmica, por isso falava um espanhol pouco castiço, o que acabava por aparecer em sua escrita. Outro aspecto é que muito de sua produção literária vinha de uma rotina de redação jornalística, o que o levava a não ter tempo de revisar os próprios textos. Isso, ao contrário de muitos escritores abastados da época, que podiam se dedicar exclusivamente à literatura”, afirma. O tradutor explica que Arlt trabalhava com o Lunfardo, dialeto usado pelas classes mais baixas de Buenos Aires, que mistura sotaques do interior da Argentina com traços das línguas dos imigrantes. “Ele incorpora uma dicção da marginalidade trazendo um componente muito novo, que é essa espessura da linguagem. Algo que ainda não tinha aparecido em nenhuma proposta argentina”, afirma. Além da forma, “A Vida Porca” traz um pioneirismo no enredo que carrega ao descrever a cena urbana em um momento em que a literatura argentina não o costumava fazer. “O urbanismo e a cena na cidade são novidades naquele período pela obra de Arlt, que traz uma estética do submundo bem característica”, afirma a pesquisadora da obra do escritor, Eleonora Frenckel. Alcance. Apesar de pouco popular para nós, brasileiros, a obra de Roberto Arlt tem grande relevância nas nações de língua espanhola, sobretudo na Argentina. Frenckel conta que, em seu país de origem ele tem edições constantes, luxuosas e mais baratas e está presente em qualquer banca de jornal. “Não o acessamos tanto no Brasil, porque ele foi pouco traduzido para outros países e línguas fundamentais”, diz a pesquisadora. Davis Diniz lembra ainda de um resgate do autor feito por volta dos anos 70 na Argentina, época em que escritores mais “marginais”, caso de Arlt, estavam sendo revisitados. “Durante o tempo em que viveu, quando publicava em jornais, Roberto Arlt era também amplamente lido, alcance que caiu muito depois de sua morte, em 1942”, diz Diniz. O contrário ocorre, por exemplo, com Jorge Luis Borges, maior representante da literatura argentina, que teve alcance mais amplo depois de morrer. Recentemente, as obras de Arlt caíram em domínio público, e agora têm sido amplamente traduzidas. Desde então, “El Juguete Rabioso”, por exemplo, está em sua segunda tradução no Brasil. A primeira (editora Iluminuras), manteve o título oficial (O Brinquedo Raivoso), que foi modificado pela Relicário, explica Davis Diniz, por uma “vontade” do autor. “Ao apresentar os manuscritos para seu editor, Arlt o mostrou com o título ‘A Vida Porca’”, afirma Diniz. “O editor então sugeriu que o substituísse por algo menos cético, para aumentar as chances de venda. Em minha tradução, preferi manter o título original da obra”, conta o tradutor. Agenda O que. Lançamento de “A Vida Porca”, de Roberto Arlt, R$ 38 Onde. Pizza Sur (rua Levindo Lopes, 96, Savassi) Quando. Nesta segunda, às 19h Quanto. Entrada franca

Saiba mais A nova tradução de “A Vida Porca” foi financiada pelo Programa Sur da Embaixada da Argentina. O lançamento nesta segunda contará com clima portenho em intervenções de bandoneon e leitura dramática de trechos da obra. 

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