Um desejo, uma chance e bons amigos

Trajeto mostra que nova coreógrafa do Corpo assume posto com experiência e apoio de amigos e da família

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Cassi Abranches em trecho do espetáculo “Lecuona”, de 2004
José Luiz Pederneiras / divulgação
Cassi Abranches em trecho do espetáculo “Lecuona”, de 2004

Depois que entrou no Grupo Corpo, Cassi Abranches só pensava em dançar. Quando saiu, em 2014, coreografar havia se tornado alvo de seu desejo. Essa mudança não foi, porém, surpresa para nenhuma das pessoas que a rodeavam, nem para ela mesma. “Era muito evidente que no momento que o Digo (o coreógrafo Rodrigo Pederneiras) começava a montagem, eu ficava super animada em participar. Queria entender o tamanho, a forma, o caminho da peça e a lógica da cabeça dele”, confessa.  

A primeira incursão pelo lado mais profissional na posição veio quando uma amiga a convidou para montar uma peça para Companhia de Dança do Palácio das Artes. Aceito o convite, partiu em busca de uma equipe que a acompanharia até os dias de hoje.

“Eu cheguei para o Gabriel (Perdeneiras, marido de Cassi e filho de Rodrigo) e pedi para ele fazer a luz do espetáculo. Depois fui até Jana Castro (ex-bailarina do Corpo e amiga), que sempre foi fashionista, e pedi ela para fazer o figurino. Os dois me disseram que nunca haviam feito aquilo profissionalmente, e minha resposta para ambos foi: ‘tudo bem, eu também nunca coreografei’”.

Assim nasceu “Contracapa”, a peça que determinaria a trajetória de Cassi dali para frente. “Sentada na plateia durante a estreia, tive a certeza de que aquilo era o que queria fazer e precisava me despedir dos palcos para trilhar esse novo caminho”. Nesse período, ainda era bailarina da companhia e, ao mesmo tempo que Rodrigo a incentivava a seguir em frente como coreógrafa, insistia para que ela ficasse por mais tempo na companhia. “Ele ficou feliz com minha estreia, disse que eu tinha potencial e que seria sua sucessora”, conta.

Assim, a saída de Cassi foi adiada, mas o trabalho como criadora de espetáculos não parou. Entre solos – criou “Traço” (2011) para o colega Uátila Coutinho e “Núbia” (2012) para Ana Paula Cançado – e acompanhamento na criação de novas peças do Corpo, um filho e ensaios, Cassi seguiu em frente fazendo tudo. “Foi uma época de muita, muita correria”, lembra.

E foi assim até o primeiro grande trabalho. “Pouco antes de sair, o Carlos Saldanha convidou o Digo para coreografar para o próximo filme dele, ‘Rio Eu Te Amo’, mas ele não pode por problemas de saúde. Daí ele me indicou, mandei o material, e depois fui chamada”, relata. A pedido do diretor, ela também dançou. “Chamei o Diogo de Lima. Ele é um grande parceiro, sempre trabalhamos bem juntos”, relembra.

Os próximos convites a levariam a trabalhar para diversas companhias brasileiras, como Bolshoi do Brasil, onde criou a peça “Ariana”. De volta a terras mineiras, conclui dois trabalhos para a Cia. Sesc de Dança. Todos feitos ao lado de seus dois fiéis escudeiros. “Em todas essas peças, o Gabriel e a Jana continuaram comigo. O bom disso tudo é que mantemos uma relação característica do Grupo Corpo: somos uma família, mas trabalhamos exigindo um padrão de excelência”, diz.

Casada há 11 anos e com dois filhos, ela conta que trabalhar especificamente com o marido não traz nenhum desgaste à relação. Pelo contrário. “Conseguimos equilibrar bem as coisas. Às vezes, ele chega para mim opinando sobre uma coreografia e eu digo que não. E vice-versa: eu vou até ele e digo: ah, dá um blackout ali, daí ele olhar e faz aquela cara de ‘não’. É uma troca, na verdade”, diz.

Agora, Cassi segue até fevereiro aguardando para o trabalho que irá marcar seu percurso como coreógrafa. “Estou ansiosa, não vejo a hora de começar a trabalhar”, diz.

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