Os novos passos de Cassi

Bailarina estreia como nova coreógrafa do Grupo Corpo nas comemorações dos 40 anos da companhia

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Em casa. Cassi Abranches na sede do grupo que chama de família e onde teve início sua vontade pela coreografia
FERNANDA CARVALHO
Em casa. Cassi Abranches na sede do grupo que chama de família e onde teve início sua vontade pela coreografia

Com um convidativo sorriso no rosto, Cassi Abranches mostra simpatia em meio ao discurso seguro sobre seus trabalhos na dança. Ela é bailarina, um rosto conhecido por espectadores que na última década acompanharam as peças do Grupo Corpo. Em 2013, porém, deixou os palcos para se tornar coreógrafa, um ofício que já desempenhava paralelamente nos últimos tempos, mas que ganha agora maior reconhecimento: ela será a primeira pessoa a assinar a coreografia de uma peça da companhia depois de Rodrigo Pederneiras.  

O motivo vem da comemoração de 40 anos do Grupo Corpo, a serem completados em 2015. Em sua primeira jornada, Cassi vai trabalhar com uma composição do grupo Skank, que pela primeira produzirá uma trilha sonora para um espetáculo de dança. Além disso, Rodrigo quer apresentar formalmente a pessoa que, segundo ele, vai substituí-lo. “Ele exagera”, desvia Cassi.

Natural de São Paulo capital, a artista vive um momento em que louros são colhidos e um novo caminho forma-se sob seu pés. Daria até para esquecer dos dois “nãos” que teve da companhia mineira quando tentou entrar, mas não é assim que funciona. Ela faz um esforço para lembrar das datas, mas os fatos importantes de sua carreira continuam vívidos em sua memória, sejam eles felizes ou não. “Era adolescente quanto vi ‘Missa do Orfanato’ e lembro de pensar: ‘é isso que quero fazer’. Eu fiquei encantada”, conta.

Nessa época, ela já havia cursado aulas de balé clássico e tinha certeza de que queria estar no palco durante o resto da vida. “Minha mãe era professora de uma escola de alfabetização e, desde bem pequena, eu a acompanhava e, quando via as meninas dançando, eu dizia que queria fazer a mesma coisa”, conta Cassi.

Embora não tivesse na família ninguém inserido no meio artístico, seus pais a apoiaram. O pai apenas exigiu que cursasse faculdade. “Fiz administração, acredita? E nessa época eu continuei dançando comercialmente para poder ter dinheiro. Trabalhei até com Chitãozinho e Xororó. É comum que bailarinos façam trabalhos mais comerciais, pois se paga bem”, justifica.

Porém, a vontade de entrar no Grupo Corpo não esfriou. “Por volta dos 20 anos, eu participei da última seletiva do grupo aberta para imprensa. Eles escolheram entre 800 meninas de várias cidades brasileiras, 17 para ir a Belo Horizonte e fazer o teste. No final ficamos em oito, mas não consegui”, lamenta.

Depois de um ano, outra audição foi aberta no mesmo período em que foi convidada para se juntar a uma companhia em Portugal. Os amigos a pressionaram para aceitar o convite, alegando a importância de adentrar o mercado europeu, mas ela optou pelo teste no grupo mineiro. “Eram cinco meninas desta vez, e só duas não entraram. Uma delas era eu”, disse.

Desiludida, foi conversar com uma das fundadores da companhia, Miriam Pederneiras: “Disse pra ela ‘eu sempre chego perto e não consigo. Não sei se faço o perfil’”. A resposta a motivaria novamente: “Se você está aqui, é porque faz sim”. Daí, decidiu se matricular na escola para ficar mais próxima.

Em 2001, foi convidada a participar do grupo e lá permaneceu durante 12 anos. “Como bailarina eu me sinto muito bem-sucedida, pois planejei essa carreira e consegui percorrê-la. Algo que no Brasil é muito difícil, fazer na arte aquilo que realmente você deseja e não aquilo que o mercado tem a te oferecer”, diz.

Durante esse tempo conheceu seu atual marido, Gabriel Pederneiras, filho de Rodrigo, e também viu se manifestar nela uma vontade de criar os espetáculos. “Comecei a ficar muito interessada na parte da concepção”, conta Cassi. Daí, bastou um convite da Companhia de Dança Palácio das Artes para começar e não parar mais de coreografar. Fez peças para o Bolshoi Brasil, Sesc Palladium e também para o filme “Rio Eu Te Amo”, de Carlos Saldanha . Agora, porém, enfrenta seu maior desafio.

“Fui intérprete numa grande companhia, que tem uma linguagem muito forte. Quando cheguei, meu objetivo era conseguir entender e fazer uso desse estilo. Com muito esforço e trabalho, eu consegui. Agora, meu grande obstáculo é, mesmo tendo todas as excelentes referências, criar algo que seja meu. Algo que as pessoas vejam e falem: ‘isso é Cassi Abranches’”.

Dança Bailarina estreia como nova coreógrafa do Grupo Corpo nas comemorações dos 40 anos da companhia

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave