Aos que se angustiam no Natal

iG Minas Gerais |

Antes de mais nada, sou solidário a eles, e mais, compreendo-os perfeitamente. Quase diria que uma parcela dos que não suportam o Natal é quase genética, um gene “antidatismo”, que muitas vezes se estende para odiar também o dia de aniversário, o Carnaval, o Dia das Mães ou dos Pais. E, para espanto dos festeiros, essa turma não curte nem mesmo o famoso réveillon, aparentemente uma excitação universal e global, a ponto de ser comemorado 12 horas seguidas, dependendo do fuso horário; as TVs vão mostrando fogos estourando de Pequim, Sidney, Moscou, Paris e... Copacabana. É bem verdade que o Natal não é mais o mesmo. Perdeu a magia e o encanto, com uma superpopulação de Papai Noel que Deus me livre! Dos sofisticados shoppings, onde decorações exuberantes estimulam filas de consumidores e selfies intermináveis, até os Papais Noéis mambembes de pequenos comércios, ou os populares como os da 25 de Março, do Saara, ou da rua dos Carijós. Magros, barba branca mal-ajustada e sininhos empunhados por desempregados ou biscateiros, obrigados a sorrir para as cada vez mais novas e raras crianças ingênuas que ainda se extasiam com o Bom Velhinho. Que pena que tais crianças estejam em extinção e, para os pais, seja difícil explicar tantos Papais Noéis que, somados ao bombardeio de comerciais onde o bom e banalizado “velhinho” e a sacanagem dos primos mais velhos, fica difícil acreditar em chaminés (ainda existem?), pés de meia e os antiquados trenós. E o que dizer das indefectíveis musiquinhas de Natal, poluindo nossas memórias afetivas? Chegamos à conclusão de que o romantismo, a ingenuidade e o onirismo estão em baixa. Ok, o Natal é bipolar! Parte da população assalta o comércio, em uma compulsão consumista que beira ao doentio. São os “natalmaníacos”: decoram as casas, árvores com enfeites, luzinhas no jardim, na varanda. Organizam festas homéricas, e haja castanha, nozes, perus, farofa de ovos, pernis, frutas diversas, foguetes, e as músicas “noite feliz, noite feliz”. Enquanto isso, os angustiados e deprimidos ficam loucos para acelerar o tempo, submergir no dia 22 de dezembro e reaparecer no dia 3 de janeiro. Alegam que tais festas lembram pessoas já falecidas, ou brigas que dividiram famílias, ou Natais de privação, ou que remetem a perdas, e sei lá mais o que... O certo é que essas duas tribos, os que amam e odeiam o fim de ano, se contrastam, muitas vezes se cobram, e não se entendem. A todos, eu digo que a arte da compreensão é o humilde aprendizado de trocar de lado com o outro. A diversidade é uma dádiva, e ninguém está certo nem errado. Aos que se entristecem nessa época, algumas dicas: se apresentem como são, não tentem fingir o que não sentem, não façam o que não querem. Mas com a suavidade e sabedoria de não ser a gota de limão que talha um litro de leite. Afinal, os que amam festas e comemorações são a maioria. Durma mais cedo, leia um livro, assista a um filme (não natalino) e, no dia seguinte, almoce o resto da ceia e curta a alegria dos que ganharam seus presentes. Aceite a ressaca sem sentido dos que encheram a cara e vão rebater até o dia 2 de janeiro. Faça sua caminhada e compartilhe com as crianças a alegria de suas bicicletas novas e presentinhos nas praças da cidade. Pois é essa alegria espontânea e original que sustenta o espírito de Natal. Enquanto houver crianças que acreditam no Velhinho e seu trenó, a essência natalina será preservada. Pois reviver essa magia é preservar a criança que no fundo nos habita. A todos, um Natal que seja da forma e do conteúdo de modo a respeitar a todos!

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