Espaços na disputa por recursos

De acordo com Bof, esse efeito negativo acontece quando há a transferência do apoio das empresas para os próprios centros culturais administrados por elas, em vez dos projetos que concorrem ao patrocínio via Leic

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Ao mesmo tempo que o Estado acumula grande repercussão de suas ações com a inauguração de um complexo como o Circuito Cultural Praça da Liberdade, para a atriz e produtora, Bárbara Bof, proporcional a essa visibilidade deve ser a responsabilidade do governo em criar condições para que os novos espaços sejam ocupados de acordo com as necessidades do público e dos profissionais da cultura.  

Além disso, ela acrescenta ser importante definir como esses equipamentos serão mantidos sem comprometer o orçamento de mecanismos como a Lei Estadual de Incentivo à Cultura (Leic), que neste ano, deixou um vasto volume de propostas de fora, em razão do alcance em tempo recorde do teto permitido para a renúncia fiscal.

“É necessário que todo o investimento feito seja aproveitado no sentido de oferecer um lugar capaz de afetar as pessoas de várias origens sociais. Outra questão importante é evitar que a existência desses espaços não provoque a retirada de uma fatia necessária de recursos para a cultura, que já é pequena”, sintetiza.

De acordo com Bof, esse efeito negativo acontece quando há a transferência do apoio das empresas para os próprios centros culturais administrados por elas, em vez dos projetos que concorrem ao patrocínio via Leic. “É muito complicado eles disputarem esse recurso com iniciativas que necessitam desse incentivo. Isso colabora para a escassez de recursos que enfrentamos neste ano, com o teto da Lei de Incentivo alcançado antes do fim de junho. Quem sai perdendo nisso são as pessoas, a cidade, que passa a ter um acesso mais restrito à cultura, uma vez que várias propostas são prejudicadas”, acrescenta ela.

Francisca Caporali, diretora do Centro de Arte Jardim Canadá (Jaca), conta que o único projeto de artes visuais contemplado no edital da Petrobras, lançado para Minas Gerais no ano passado, provavelmente não vai para frente, em razão dessa falta de recursos. Diante disso, ela também questiona como vão se organizar daqui para frente todos aqueles equipamentos, se apesar desse cenário desfavorável, eles mantiverem suas programações também financiadas com dinheiro aprovado via Leic.

“É algo a ser esclarecido, porque o cenário está difícil. Nós ficamos animados com a seleção do projeto que criamos para comemorar os cinco anos do Jaca, mas não podemos contar com o dinheiro. Talvez, quando ele for liberado, nem faça também tanto sentido realizar a proposta porque o aniversário é no início do próximo ano e, geralmente, esses recursos chegam a partir de dezembro”, afirma Caporali.

Isso tem um impacto grande no segmento que atua, pois como ela observa, ainda são precários os incentivos às artes visuais. “Ainda hoje não existe um programa voltado para essa área, muito também porque a classe talvez não se organize tanto para reivindicar isso. Mas falta uma política que preveja bolsas e residências para os artistas daqui”, diz. 

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