Quantos negros corruptos você conhece? - terceira parte

iG Minas Gerais |

Para cada herói esquartejado, um milhão de abrutes chupando o sangue e roendo os ossos
Intervenção sobre “Tiradentes esquartejado”, pintura de Pedro Américo
Para cada herói esquartejado, um milhão de abrutes chupando o sangue e roendo os ossos

O núcleo mais emblemático de corrupção no período colonial se estabeleceu no Nordeste. O ensaio “Pernambuco no período colonial”, do historiador Evaldo Cabral de Mello, ainda no livro “Corrupção – Ensaios e Críticas”, da Editora UFMG, dá o tom das diferenças entre a nossa colonização e, digamos, a dos Estados Unidos. Vejamos o parágrafo inicial: “Como compensação pelos modestos ordenados pagos às autoridades ultramarinas, o recrutamento em Portugal de governadores, magistrados e outros funcionários já pressupunha que a coroa fecharia os olhos às irregularidades cometidas por seus agentes, desde que atendidas duas condições implícitas: a primeira, a de não atentar contras as receitas régias; a segunda, a de agirem com um mínimo de discrição. Sem essa cumplicidade tácita, não seria possível recrutá-los ao menos nas camadas da nobreza e da burocracia metropolitanas, pois o nomeado, ou melhor diria, o agraciado, só se prestaria a servir fora do Reino na expectativa de fazer o pé de meia que lhe garantiria uma existência tranquila após o regresso a Portugal.” LIÇÕES DE CASA A cultura da corrupção no Brasil foi, por assim dizer, importada. Chegou e frutificou em nossa “civilização” desde quase o descobrimento. De nossos tataravós aos desfrutadores impunes de ontem e de hoje, toda uma imensa rede de influências herdadas e partilhadas conta nossa história numa grotesca linha reta. Continua Cabral de Mello: “Tolerava-se o comércio dos governadores e dos magistrados da coroa (ouvidores e juízes-de-fora) desde que exercido através de testas de ferro, geralmente criados das autoridades ou comerciantes já estabelecidos.” Nossos atuais “laranjas” brotaram certamente nesse pomar. “Um desses governadores, acusado de monopolizar o comércio de couro das reses abatidas para consumo da população, adquirindo-os por metade do preço de mercado, retrucará, quando interpelado a respeito, que ‘quanto a isto de couros, hei-de comprá-los como os comprei até agora, pois meus antecessores assim o faziam’”. “Magistrados houve que transformaram suas residências em casas comerciais. Pouco tempo decorrido de sua chegada à terra (...) o ouvidor João Marques Bacalhau já despachava para o Reino 50 caixas de açúcar e 5.000 cruzados em espécie. De outro ouvidor, João de Sepúlveda e Matos, sabe-se que curtia couros no próprio gabinete em que despachava, como se sua ocupação só fora de comprar e vender.” NOVAS LIÇÕES “Como governador de Funchal, Duarte Sodré Pereira, que governaria Pernambuco nos anos 30 do século VXIII, chegou a comandar uma verdadeira rede comercial que, baseada no eixo Lisboa-Londres, englobava o Atlântico desde Boston, Nova Iorque e Filadélfia até a Bahia, o Recife e o Rio de Janeiro, passando por Curaçau, Barbados, Jamaica, Angola, os Açores, Hamburgo e Amsterdã. O negócio abrangia grande variedade de produtos: cereais, vinho, tecidos, açúcar, azeite, escravos, material de construção naval, armas e munições, sendo que no Recife seu comissário era um dos mercadores mais ativos da praça.” Em vista de tão eloquentes lições, não há como desmerecer o sólido aprendizado de nossos corruptos e de nossos “investidores” privados em paraísos fiscais. Passadas de pais a filhos e de netos a bisnetos, as lições frutificaram em solo fértil, dando no que deu desde então até hoje, ou até ontem, se a justiça não for cega como sempre foi. TEM MAIS, SIM, SENHOR “A atuação dos testas de ferro era coberta, inclusive ‘manu militari’ graças aos poderes governamentais de capitão-general. Castro e Caldas, que governou o Rio de Janeiro, onde foi acusado de contrabando com navios franceses, e Pernambuco, de onde teve de fugir para escapar a um levante da nobreza da terra, dizia conhecer ‘por experiência o que pode um governador, que valem mais o seu respeito e intervenção do que quantas sentenças se possam alcançar por todos os caminhos’. A aliança entre a burocracia régia e os mercadores do Recife, que se forjou ao longo da segunda metade do século XVII e ao longo do XVIII, baseou-se nessas conivências lucrativas bem mais do que nos laços de solidariedade reinol ou na convicção, por parte das autoridades da coroa, de que seus conterrâneos eram vassalos mais fiéis do que a gente da terra.” “Por trás das disputas jurisdicionais entre os governadores de Pernambuco e o governo-geral na Bahia, atuava muitas vezes a concorrência pelo direito a nomear para cargos lucrativos, que podiam ser rateados pelo séquito do governador que, por sua vez, ficava com uma parcela dos proventos.” O FIO DA MEADA Quase no final, aponta o dedo Evaldo Cabral de Mello: “Ainda outras fontes de ganho ilícito reportavam-se à competência dos governadores como superintendentes das fortificações, o que lhes rendia comissões de empreiteiros”. Chegamos à palavra da moda: empreiteiros. No entanto, todos os brasileiros – inclusive os cegos, surdos e mudos –, desde que bem informados, sempre souberam de mutretas envolvendo obras públicas e privadas. Eu mesmo ouvi falar, ou tive conhecimento, de casos famosos datando de 50 anos ou mais, desde meus primeiros passos profissionais. Em agências de publicidade, e trabalhei em várias, sempre correram à boca pequena (ou grande) gordas comissões e superfaturamentos. Alguém se mostra espantado? Teatro puro. Outros se escandalizam? Fingimento. Alguns botam os rabos entre as pernas? Sim: de medo. Enquanto a média da mídia nada na superfície, me dei ao luxo de mergulhar em águas um pouco mais profundas, para mostrar que o mal vem de longe e está em nossa herança cultural desde nossos espertos bisavós-colonizadores. Comentarei sobre negros corruptos – existem? – na última crônica da série.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave