Chorinho para brasileiro ver

Formado na Holanda, Trio Bola Preta, que une uma brasileira, um português e um alemão, toca hoje à noite, em BH

iG Minas Gerais | fábio corrêa |

Caldeirão. Grupo é formado por Francisco Medina (esquerda), Matthias Haffner (centro) e Mariana Bruekers (direita)
Antonio Ribeiro
Caldeirão. Grupo é formado por Francisco Medina (esquerda), Matthias Haffner (centro) e Mariana Bruekers (direita)

Um dos estilos mais genuínos da música brasileira, o choro surgiu em meados do século XIX, no Rio de Janeiro. Porém, antes de se consolidar como gênero musical – com harmonia, ritmo e melodia particulares –, ele era mais uma forma de tocar e experimentar temas de diferentes origens. Nas primeiras rodas, ritmos afro-brasileiros como o maxixe embalavam melodias consagradas de danças europeias, o que serviu de base para o estilo que, no século seguinte, se consagraria nas mãos de compositores como Pixinguinha, Villa-Lobos e Radamés Gnatalli.

“O choro nasceu da mistura”, diz a flautista Mariana Bruekers, que integra o Trio Bola Preta. “Por isso, ele permite muito que se faça tantas combinações”, analisa. Formado em 2011 na Holanda, o grupo retrata, já na sua formação, a tal variedade de culturas tão cara ao choro: além da belo-horizontina, que assume as flautas, o trio conta com o português Francisco Medina (violões) e o pandeirista alemão Matthias Haffner. Hoje, às 20h, eles se apresentam, na capital mineira, fechando a turnê que trouxe o trio pela primeira vez ao país.

Tudo começou quando Mariana, graduada em flauta pela Universidade Federal de Minas Gerais, foi fazer o mestrado no Conservatório Real de Haia, na Holanda. No país das tulipas, ela conheceu Medina, formado em guitarra jazz pela mesma instituição, e Haffner, um especialista em ritmos latinos e que havia estudado em Roterdã. “O Matthias tem essa história com a música latina; o Francisco, além do jazz, também tem muita influência de fado; e eu venho da música clássica. Além disso, existe o contato que temos na Europa com outros tipos de culturas, como a música cabo-verdiana e a salsa”, explica Mariana. Tantas inspirações acabam, naturalmente, se refletindo nos arranjos. “A gente brinca um pouco com o ritmo, obviamente sem descaracterizá-lo, mas sempre citando outros estilos”, conta.

Em meados deste ano, o Trio Bola Preta lançou “Saideira” de forma independente. O caldeirão de culturas musicais, inclusive, é mais que recorrente nas dez faixas do disco – todas elas composições próprias. Em “Insensível”, por exemplo, a utilização de um piano elétrico Fender Rhodes e da guitarra dialogam com o jazz; já “Nunca Mais” traz um solo de flauta que remete à utilização do instrumento na música erudita; e “Samba do Português” é bem autoexplicativo. “É isso que tentamos trazer para o choro, mantendo as raízes, mas brincando com formas diferentes”, justifica a flautista.

Inversão. Na apresentação de hoje, o Bola Preta irá tocar, além das músicas de “Saideira”, choros compostos por músicos estrangeiros. São estudiosos do estilo de origem inglesa, dinamarquesa, finlandesa, alemã e caribenha (da ilha de Curaçao) que se apaixonaram pelo gênero. “É uma concepção errônea achar que só o brasileiro toca música brasileira”, reflete Mariana. “Claro, os estrangeiros encontram algumas dificuldades para tocar o choro porque não nasceram na nossa cultura. Mas, às vezes, eles sabem mais que a gente porque, enquanto para nós é intuição, eles vão a fundo, leem, estudam e pesquisam a história”, diz a flautista, que vê no show uma oportunidade de mostrar que a música brasileira está em boas mãos no exterior.

Cinco músicos belo-horizontinos também estão como convidados na apresentação de mais à noite. Lucas Telles, Lucas Ladeia e Luiza Mitre, do grupo Toca de Tatu, e a pianista Natália Mitre e a cantora Natália Sandin se juntam aos três integrantes do Trio Bola Preta. A turnê, que passou por Inglaterra, Holanda, Portugal e, naturalmente, Minas Gerais (São João Del Rey, Diamantina, Ouro Preto e Belo Horizonte), se encerra depois da apresentação.

Para 2015, o Bola Preta já está se preparando para participar do Festival Internacional de Choro de Paris, além de concertos na Holanda.

Agenda

O quê. Trio Bola Preta, - “Saideira: Chorando pelo Mundo”, com choros de composição própria e também de compositores europeus

Quando. Hoje, às 20h30

Onde. Teatro de Câmara do Cine Theatro Brasil (rua dos Carijós, 258, centro)

Quanto. R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)

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