A fotografia rouba almas?

iG Minas Gerais |

“A arte e a fotografia têm a capacidade de prolongar o tempo”
Arquivo pessoal
“A arte e a fotografia têm a capacidade de prolongar o tempo”

As belas fotografias, vamos dizer assim, não chegam a roubar, mas a desvendar a alma antes do clique, e então vamos sequestrá-las para depois colocar em exibição.

 

A fotografia, num segundo, já é passado. Este é seu valor, ser história em tão pouco tempo?

O meu olhar, e pelo que ele me transmite e traz de sensações, foi o que despertou em me tornar fotógrafo e continua sendo assim até hoje. Eu tenho a sensação de passado como o futuro também, o que vivemos no segundo que passou vai ser uma porta aberta para os próximos passos. Então a imagem que fiz um segundo atrás é história fazendo história e fazendo mais história. A fotografia é uma arte muito valiosa do tempo: a arte e a fotografia têm a capacidade de prolongar o tempo.

 

A fotografia digital é criação do diabo?

Com essa pergunta me bateu agora aquela saudade da minha câmera escura, do meu laboratório com umas gatas curiosas lá dentro, nós banhados à luz vermelha. Não sei, mas cabe aqui meu sentimento da passagem da fotografia analógica para a digital, na música do Martinho da Vila, coincidentemente, tocando no rádio agora e me inspirando, é “Ex-Amor”: “Ex-amor/Gostaria que tu soubesses/O quanto que eu sofri/Ao ter que me afastar de ti/Não chorei!/Como um louco eu até sorri/Mas no fundo só eu sei/Das angústias que senti…”

 

Você, como fotógrafo, é quase sinônimo de capas de disco. Quantas fez e quais as favoritas e as mais interessantes?

Esse é um trabalho que eu amo, não sei precisar quantas fiz. São muitas mesmo e eu adoro todas. Porque quando eu entro no processo do disco, sempre os caras já acabaram as gravações, já se sabe a música que será o carro-chefe e qual vai dar o nome do disco. Geralmente, o músico já está mais relaxado, então partimos para criar a embalagem deste novo disco. Uns músicos já chegam com ideias do que querem, outros mostram as músicas e discutimos o que seria melhor fazer.

Para citar algumas, as capas do Toninho Horta foram sempre com direção dele, as do Celso Adolfo foram produções muito instigantes, já fechamos a Avenida do Contorno, no tobogã, para fazermos uma chuva artificial. Com o Lô Borges, é pura criação minha; com Tavinho Moura, ele já pensou antes; o mesmo com Tadeu Franco, que já pede para realizar uma ideia dele.

Uma história: tem a foto da capa do disco “Sonho Real”, do Lô Borges, que foi muito sofrida e no final, muito linda. O Lô não sugeriu, ele esperou para ver. Então convidei o artista plástico Gilberto de Abreu, que ficou uma semana acampado no meu estúdio. Viajando, pintou todo o fundo infinito até o teto e as luminárias com suas cenas. Quando o Lô chegou, até que viajou no cenário. Colocamos nele uma calça de couro preta e um casaco vermelho. Lembro que sua mãe, a saudosa e querida Maricota, que acompanhava a sessão, ainda colocou um ramo de trigo no bolso superior do casaco. Fotos prontas, fomos para o Rio de Janeiro, na gravadora Odeon. Levamos os cromos, selecionamos com o Tadeu Valério, que era do departamento gráfico, e escolhemos as fotos com o Ronaldo Bastos, que era o produtor do disco.

Voltamos eu e o Lô num voo à noite para BH e fomos cada um para o seu reduto. Lá pelas seis da manhã, toca o meu telefone, o Lô me xingando que não queria aquela foto na capa. Afinal, para quem tinha feito uma capa de disco com um “tênis”, aquela foto virtuosa não soava em seu perfil. Eu meio sem saber o que fazer, levantei assustado e fui para o estúdio. Peguei as fotos P&B que já tinha feito para divulgação e release deste disco. Foi uma seção de fotos que fiz com o Lô na pracinha do bairro de Lourdes, ali na Marília de Dirceu. Então peguei uma foto dele, um close do rosto em perfil e fiz uma separação de tons, um trabalho gráfico e deu no que deu. Nove horas da manhã, estava eu em Santa Tereza, apresentando a nova foto para a capa do “Sonho Real”. Ele adorou, eu fui feliz da vida de volta para o Rio de Janeiro e mudamos toda a concepção da capa.

 

Qual a sua praia na fotografia? As montanhas?

Olha, agora que estou morando no residencial Vale do Sol, aqui em Nova Lima, tenho o privilégio de estar dentro destas montanhas de minério puro. A natureza tem me encantado, as flores e as luzes em cada estação do ano, os pássaros, as formas das nuvens, as luas cheias, que por sinal todo mês dão o maior acesso quando posto no Facebook. As trilhas das bikes tenho fotografado muito, são a grande atração no momento. 

 

Você trabalha com o pintor Carlos Bracher. Retratos e obras de arte também estão na mira?

O Carlinhos Bracher é um ser humano muito especial. Conviver com ele é um grande aprendizado, seus pensamentos de vida e suas dissertações fazem dos nossos encontros momentos especiais. Tenho trabalho com ele em vários de seus livros, o mais recente sobre os 200 anos do Aleijadinho.

Tenho trabalhado com muitos artistas plásticos, em vários livros, convites, folders com fotos minhas. Além de gostar muito de reproduzir com perfeição as telas, num trabalho técnico muito apurado, adoro fazer permuta com eles. Tenho uma coleção muito linda e preciosa nas paredes de minha casa, com quadros de vários artistas. Troco meu trabalho por trabalho deles; adoro.

 

Faria fotos de guerra? De nus?

Apesar de gostar de assistir filmes sobre a Segunda Guerra – assisti há poucos dias dois lindos, “A menina que roubava livros” e “O menino de pijama listrado” – como sempre muito tristes; eu nunca tive vontade de participar de uma guerra de forma alguma. Sou totalmente contra elas, não sei como eu reagiria com uma câmera na mão vendo essas barbaridades. A destruição da humanidade e as crueldades praticadas me deprimem, tô fora.

Já fotos de nus fiz muitas, não é um trabalho fácil como todos pensam. Teve um trabalho em que me encomendaram uma foto para ilustrar um pôster e folders, que seriam distribuídos a agências de propaganda, mostrando a qualidade de impressão de uma gráfica nova. O layout que me chegou era um detalhe dos seios de uma moça, plano bem fechado, só mostrando os mamilos. Passei uma semana selecionando seios, foram mais de 50 moças me mostrando os seios para eu escolher.

 

Um mestre brasileiro e um estrangeiro que são referência ou te inspiraram?

Olha, mestre brasileiro eu não tive, tive muita admiração pelo trabalho de vários fotógrafos. Minha geração nos anos 1980 levou a fotografia mineira ao patamar de arte. Era um grupo grande e a criação estava aflorada, com as ofertas dos salões de artes, como o Salão Global, premiando; Salão de Sabará, o início dos concursos nacionais e internacionais, como o da Nikon. A mineirada ganhava em todos. Lembro que na Bienal de 1978, em São Paulo, eu e mais dois mineiros fomos convidados a participar no setor dos novos talentos da fotografia brasileira. Então a gente ficava apreciando as fotos dos outros e tirava dali mais uma inspiração. Entre os fotógrafos de fora, teve o Ansel Adams, com suas naturezas em dez tons de cinza, e o Cartier-Bresson, com seus instantâneos. Mas teve um sul-africano que me bateu muito, Kevin Carter. Ele vivenciou uma cena de um abutre pronto para pegar uma criança africana desnutrida. A menina morreu, no entanto ele impediu que fosse devorada.  Um ano depois, este cara suicidou-se.

 

E a publicidade?

Trabalhei muitos anos fazendo fotografias para publicidade. No início dos anos 1990, criamos AFPP – Associação dos Fotógrafos Profissionais de Propaganda, da qual cheguei a ser presidente. A AFPP foi importante por regulamentar atitudes, comissões, prazos de pagamentos e valorização do trabalho de vários estúdios em BH. Atualmente, trabalho pouco com as agências de publicidade, apesar de ter construído agora um lindo estúdio aqui no Vale do Sol, que está pronto para receber encomendas publicitárias.

 

E o mercado mineiro, inútil paisagem da janela lateral?

O mercado em Minas nunca mudou a sua realidade. Aqui o fotógrafo não se especializa numa determinada área da fotografia, ele não faz só o que mais gosta e sabe fotografar colocando na roda a sua técnica ao serviço do mercado. Ele acaba tendo que fotografar um pouco de tudo para sobreviver.

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