Bate debate 19/12/2014

iG Minas Gerais |

Passageiros

Felipe Pedrosa Jornalista 

“A vida é simplesmente uma viagem de trem”. Dona Maria, nascida e criada na região Leste de Belo Horizonte, dizia a frase toda vez que alguém passava por ela. Ou toda vez que passava por alguém! A falta de visão — sim, ela era deficiente visual, e “era” porque deixou este plano há meses — não a impediu de enxergar os encontros e desencontros da jornada. Demorei dias, longos dias, cá entre nós, para compreender o que dizia afinco. E foi durante um café despretensioso — desses em que o convite é aceito de supetão — que fui capaz de sentir as suas palavras. "Cada pessoa, independentemente da época, tem uma missão específica na vida do outro", exemplificou ela, antes de finalizar a xícara do líquido preto e fervente.

Dona Maria explicou que em cada um de nossos trajetos, diferentes passageiros entrarão em nosso vagão e, assim que o seu destino chegar, vão desembarcar sem culpa.

Durante a viagem, tanto longínqua quanto efêmera, há aquele lhe dá a mão para embarcar; outro que lhe ajuda a segurar o peso do dia — embrulhado em sacolas ou mochilas; os que se espremem por disputarem o mesmo espaço; e ainda os que, apesar de não influenciarem em nada o itinerário, são suportáveis a cada novo quilômetro. “Só que, meu filho, alguns passageiros são inesquecíveis”, disse aquela senhora, desvendando que, há pouco mais de dois meses, eu havia reencontrado um marcante peregrino. “E, sempre que um desses se refaz em nosso caminho, as perguntas vão além do trivial”, completou ela, citando o nome de uma amiga que, logo após a faculdade, mudou-se para Brasília, o sobrenome de um ex-companheiro que, ainda na adolescência, a deixou em prol de outro amor e, meio que desconcertada, o apelido de sua eterna arquirrival, que... "é melhor deixar pra lá”.

É claro que, ao reencontrar alguns desses passageiros, as perguntas não vão passar das clássicas “tá arrumando o quê da vida?”, “ainda mora no mesmo lugar?", “já casou?”. E, após um ping-pong sem muita importância, o silêncio vai ser instaurado. É melhor sair de fuga e, como sempre, usar a desculpa do bom e velho paiol.

O tempo, como bem afirmou Dona Maria, vai trazer algumas rugas, provocar uma certa calvície e, quem sabe, desenvolver gordurinhas localizadas. Só que ele, muitas vezes materializado naquela ampulheta, não vai mudar a missão de nenhum dos passageiros que cruzaram o seu caminho: uns lhe suportarão mais do que os outros; outros lhe deixarão mais saudade do que uns; uns vão disputar mais espaço com você do que outros; outros vão querer-te por perto mais do que uns... “Esteja sensível em qual é a sua missão na vida de cada passageiro que entrar no vagão em que coloca os pés”. Essa foi a última frase — ainda sobre a discussão sobre a vida ser uma viagem de trem — que Dona Maria me disse. Mentira.

Na despedida, com toda a serenidade do mundo, ela pediu-me — mesmo que desafinado, e bota desafinado nisso — para cantar a canção que entoava no dia em que nos conhecemos: “eu já estou com o pé nessa estrada, qualquer dia a gente se vê, sei que nada será como antes, amanhã”.

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