Vítimas do medo

iG Minas Gerais |

O coração está um desassossego só. Qualquer barulho já é sinal de alerta. O medo assombra em tempos que deveriam ser de paz. Ele desestrutura. Abala a fé, se embola com a revolta e pode até fazer adultos sentirem-se como crianças – carentes e indefesas diante do imprevisível. Ontem foi ela, hoje pode ser você ou ele...quem vai saber. Somos todos vítimas da insegurança, do abandono do poder público, da maldade do próprio homem. O barulho da motocicleta atormenta. Soa insuportável aos ouvidos. Se no veículo encontram-se piloto e garupeiro, então, aumenta o temor. Perdão aos que são de bem, mas todos acabam sendo suspeitos. Dos horrores e dissabores ocorridos em dias ruins. Vão de jovens perdidos a homens cruéis numa metamorfose rápida e apavorante. O ronco do motor à noite parece ainda mais estarrecedor. É preciso espantá-lo junto com os fantasmas do medo. É que as imagens das gavetas reviradas, das roupas e dos objetos espalhados pelo chão ainda não se foram. Produzem pensamentos ruins. As coisas voltam aos seus lugares rapidamente, mas o que não passa, na mesma velocidade, são os estragos da alma. Esses podem perdurar dias, meses ou anos entre vítimas de violência. O medo passa, depois vai embora e torna a voltar como num ciclo. Ele o faz refém de si mesmo. Nem todos os lares guardam riquezas materiais. Mas, ainda assim, são invadidos, devastados. Quem entra para fazer o mal não consegue ver ali as dores ou os amores daquelas famílias. Não sabem o quanto sorriram no almoço do último domingo. Jamais terão noção do afeto da mãe pelos filhos ou o quanto aqueles pais lutaram para mantê-los numa boa escola. Passam batido pelos dias de luta, pelas discussões por ciúme ou simplesmente pelas palavras serenas e sábias proferidas pela avó no último Natal. O medo e a dor determinam a altura dos muros, a qualidade das câmeras, a força das grades. Transformam lares em prisões... Muitas vezes, as pessoas querem guardar histórias de uma vida a dois que começa ou daquelas que perduraram anos e anos. Outras guardam ainda lembranças de quem já partiu. Para cada morada, há um valor. Muitos bens são imateriais e nada significam aos olhos de invasores que, quase sempre, se mandam antes de a polícia chegar. A confiança míngua a cada episódio de violência. Além de reforçar a segurança e a atenção, é preciso renovar a fé. Respirar fundo na briga diária. Recomeçar. Agarrar-se a qualquer fio de coragem, de esperança. Seguir.

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