Angústia ofusca clima natalino

Atendimento para apoio emocional aumenta de 20% a 30% na capital

iG Minas Gerais | Litza Mattos /ALINE RESKALLA |

A chegada do fim de ano e, especialmente do Natal, tem a capacidade de mexer com os sentimentos das pessoas. Enquanto algumas usam a renovação como motivação, outras se sentem mais angustiadas, melancólicas e até mais depressivas.

“Quando penso nas famílias que estão passando necessidades, me causa essa sensação. Também pela minha avó, que não está mais com a gente há dois anos. Ela era muito festeira, então procuro continuar fazendo o que ela sempre gostou”, conta a dona de casa Edna Maria Brito, 52.

Católica, ela diz que, apesar de essas situações trazerem à tona os sentimentos mais melancólicos, tenta usar a religião para se fortalecer. “Procuro ajudar alguém e fazer uma oração para fortalecer o espírito. O lado espiritual é o que costuma me deixar alegre nesta época do ano”, diz Edna.

De acordo com o psicanalista Maurício Henriques Damasceno, antes de mais nada, é preciso identificar o sentimento. “A melancolia como uma entidade psicopatológica normalmente vem acompanhada por uma condição grave, que não é temporal, e sim estrutural. O melancólico pode piorar nesta época, mas não se torna melancólico por causa do Natal”, diz.

Segundo Damasceno, a angústia costuma ser a sensação mais comum, muitas vezes motivada por uma série de exigências afetivas, somadas à ansiedade de finalizar um ciclo. Ela pode aparecer tanto em pessoas que tiveram problemas ou mesmo um bom ano.

Damasceno não acredita que esse sentimento possa evoluir e funcionar como um gatilho para quem tem predisposição à depressão, mas sim piorar um quadro depressivo já existente. “Em geral, a angústia se desfaz quando a exigência de enfrentar novamente os dramas pessoais e familiares deixa de existir imediatamente. Se o quadro permanece, trata-se de condição crônica potencializada pelas circunstâncias”, analisa.

Ajuda. Em datas como Natal, Finados, Dia dos Pais e Dia das Mães, o volume dos atendimentos do programa de apoio emocional realizados pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) de Belo Horizonte cresce de 20% a 30%, segundo a voluntária Ordália Mendes.

“Atendemos homens e mulheres, de todas as faixas etárias e classes sociais, de forma anônima. São cerca de 30 atendimentos por dia. Em 2013, foram 13 mil, e até outubro deste ano já fizemos mais de 11 mil. Nos fins de semana e à noite o volume aumenta”, diz.

Segundo Ordália, os motivos são variados. “Geralmente são pessoas que se sentem sozinhas ou estão tristes por causa de parentes que se foram. Quando a pessoa liga, ela quer desabafar. Funcionamos como um pronto-socorro emocional. Não damos conselhos, geralmente a própria pessoa percebe o que será o melhor para ela”.

A psicóloga Rovena Paranhos acredita que a celebração natalina cumpre seu papel ao nos permitir, ao menos, que façamos um balanço. “Marcando o fim de um ciclo, essa etapa é condição necessária e inevitável para o início de um novo ciclo, e vivê-la permite que se reúnam condições para seguir”, diz Rovena, professora da Faculdade de Medicina de Petrópolis.

Atendimento

CVV. Os voluntários do Centro de Valorização da Vida atendem por telefone, chat, e-mail, correspondência ou pessoalmente. Basta ligar para o número 141 ou acessar o site www.cvv.org.br.

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