A busca de um novo começo para a sobrevivência da Terra

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DUKE
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No artigo anterior, abordamos o lado objetivo da questão ecológica, tentando superar o mero ambientalismo a partir de uma nova visão do planeta, da natureza e do ser humano como a porção pensante da Terra. Mas essa consideração é insuficiente se não for completada por uma visão subjetiva. Não basta ver e pensar diferente. Temos também que agir diferente. Inspira-nos a Carta da Terra, de cuja redação tive a honra de participar. Insatisfeito com os resultados finais da Rio+20, um grupo decidiu fazer uma consulta nas bases da humanidade para levantar princípios e valores em vista de uma nova relação para com a Terra e a nossa convivência sobre ela: “Como nunca antes da história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo… Isso requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal”. E conclui a Carta: “Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a perspectiva de um modo de vida sustentável”. Note-se que se fala de um novo começo, e não apenas de alguma reforma. Duas dimensões são imprescindíveis: uma mudança na mente e no coração. A mudança na mente já foi abordada no artigo anterior: a nova visão sistêmica, envolvendo Terra e humanidade como uma única entidade. Agora, cabe aprofundar a mudança do coração. Para mim, aqui está um dos nós essenciais do problema ecológico, que deve ser desatado se quisermos mesmo fazer a grande travessia para o novo paradigma. Trata-se do resgate dos direitos do coração. Toda a nossa cultura moderna exacerbou a inteligência racional até o ponto de torná-la irracional com a criação dos instrumentos de nossa autodestruição e da devastação do sistema Terra. Essa exacerbação difamou e recalcou a inteligência sensível, a pretexto de que atrapalhava o olhar objetivista da razão. Hoje sabemos que todo saber, por mais objetivo que seja, vem impregnado de emoção e de interesses. Temos que enriquecer a inteligência intelectual e instrumental, da qual não podemos prescindir se quisermos dar conta dos problemas humanos. Mas sozinha ela se transforma em fundamentalismo da razão, que é sua loucura. Diz o filósofo Patrick Viveret: “Só podemos utilizar a face positiva da racionalidade moderna se a utilizarmos amalgamada com a sensibilidade do coração” (“Por uma Sobriedade Feliz”, 2012, p. 41). Sem o casamento da razão com o coração, nunca nos moveremos para amar de verdade a Mãe Terra, reconhecer o valor intrínseco de cada ser e respeitá-lo, e nos empenhar em salvar nossa civilização. Bem dizia o papa Francisco: nossa civilização é cínica, pois perdeu a capacidade de sentir a dor do outro. A categoria central dessa visão é o cuidado como ética e cultura humanística. Se não cuidarmos da vida, da Terra e de nós mesmos, tudo adoece, e acabamos por não garantir a sustentabilidade nem resgatar o que E. Wilson chama de “biofilia” – o amor à vida. Tudo o que cuidamos, também amamos. Tudo o que amamos, também cuidamos. Para mim, o núcleo da razão instrumental analítica que nos deu a tecnociência, com seus benefícios e também com suas ameaças, deve ser impregnado pelo núcleo da razão cordial e sensível. Então, seremos plenamente humanos. Sentir-nos-emos parte da natureza e verdadeiramente a própria Terra, que pensa, ama e cuida. Então poderemos crer e esperar que ainda podemos nos salvar sem precisar pensar como Martin Heidegger: “Somente um Deus nos poderá salvar”. Yes, we can.

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