Silêncio diante do sofrimento

Corpo de criança esquecida pela mãe foi sepultado nesta quinta; creche operou em meio turno

iG Minas Gerais | Bernardo Almeida / Cinthia Ramalho |

Dor. No velório, mãe ficou abraçada ao pequeno caixão branco e a todo momento beijava rosto da filha
LEO FONTES / O TEMPO
Dor. No velório, mãe ficou abraçada ao pequeno caixão branco e a todo momento beijava rosto da filha

“Amor”. Essa foi a palavra mais falada na tarde desta quinta, no Velório Municipal do Barreiro, na capital, onde foi velado o corpo de Clarice Ferreira Quintão, de 1 ano e 11 meses, que morreu após passar quase cinco horas trancada no carro da mãe, nesta quarta, em um estacionamento no bairro Jaraguá, na região da Pampulha. Parentes e amigos dos pais da criança não sabiam dizer se a morte da garotinha ocorreu por descuido, esquecimento ou em decorrência de um momento de estresse. Todos sabiam, no entanto, que a mãe de Clarice a amava muito.

“Ela é muito amorosa, completamente apaixonada pelos filhos e pela família”, contou uma amiga da mulher, sob anonimato. No velório, a mãe ficou sentada, abraçada ao pequeno caixão branco e, a todo momento, beijava o rosto da filha. Em pé, o pai observava o corpo coberto por flores brancas. A família preferiu o silêncio e não comentou o caso. “Foi uma tragédia. Todo mundo está chocado”, afirmou uma colega de trabalho da mãe, também sob anonimato. O corpo foi sepultado às 17h, no Cemitério da Paz, na região Noroeste. A garota ia fazer 2 anos no próximo mês e, de acordo com amigos da família, ainda não tinha dado os primeiros passos sozinha. Os pais têm outros dois filhos pequenos, que não acompanharam o sepultamento da irmã. Um dia após a morte de Clarice, o funcionamento da creche onde ela passava parte do dia, no bairro Jaraguá, foi apenas em meio período. O expediente foi encerrado às 15h30 para que os funcionários pudessem ir ao enterro. Na porta da instituição, foi afixado um cartaz com dizeres de luto. Investigações. A Polícia Civil informou que o caso foi registrado pela Central de Flagrantes e será despachado para a Delegacia de Homicídios. A mãe de Clarice ainda não foi ouvida, pois está em choque, e não há previsão de data para o depoimento, segundo a corporação. Segundo o advogado criminalista Leonardo Yarochewsky, a mãe de Clarice pode responder por homicídio culposo – sem intenção de matar. Em casos como esse, segundo ele, o juiz pode anular a condenação. “O Código Penal prevê a figura do perdão judicial, quando as consequências do crime – como a perda do filho – são tão graves para o responsável que qualquer punição penal se torna irrelevante”.

Causa Calor. Segundo Vera Lúcia Bezerra, pediatra do Hospital Universitário de Brasília, a criança pode ter morrido de desidratação, causada por calor, e intoxicada pelo vapor de plástico.

Tecnologia Sensor. Perturbado pelos casos de crianças que morriam esquecidas nos carros, o servidor brasiliense Onilson Nunes criou há três anos o Alarme Salva Vidas. “O equipamento detecta a presença de uma criança ou animal e dispara um alarme”, explica.  Patente. Ele registrou ideia na Associação nacional dos Inventores, em São Paulo, que fez o pedido de patente, e espera que o produto seja vendido ao preço de um alarme comum. 

Especialista afirma que carro exposto ao sol vira uma estufa Um carro fechado exposto ao sol se transforma em uma estufa de calor, segundo Marcos Pinotti, professor do departamento de Engenharia Mecânica da UFMG e especialista em termodinâmica. “O vidro bloqueia os raios infravermelhos, mas não bloqueia os demais espectros de cor, até o ultravioleta, abundante na luz solar”, diz Pinotti. “Em um ambiente de 30°C, por exemplo, a temperatura pode chegar a 45°C, 47°C”, conta Pinotti. Presidente do Comitê de Segurança Infantil da Sociedade Mineira de Pediatria, Cynthia Coelho explica o efeito do calor nas crianças. “A superfície corporal infantil é proporcionalmente menor que a de um adulto, mas, grosso modo, a área por onde ela perde líquido é maior”, diz a pediatra. “Ela tem uma hipertemia, o que leva a um colapso circulatório, ainda mais que seus sistemas não são tão maduros quanto os de um adulto”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave