Sarney se despede do Senado após 59 anos de vida pública

Diversos senadores foram ao plenário homenagear Sarney; Com o fim do mandato, ele disse que vai dedicar seu tempo ao seu único hobbie: a leitura

iG Minas Gerais | Folhapress |

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
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 Após 59 anos de vida pública, o senador José Sarney (PMDB-AP), 84, fez nesta quinta (18) seu discurso de despedida do Congresso. Com a mais longeva carreira da política brasileira, Sarney não terá mandato a partir de 2015 porque decidiu não disputar as eleições de outubro.

No último discurso no Legislativo, o peemedebista fez duras críticas ao sistema político brasileiro e defendeu mudanças nas regras das empresas estatais para evitar ações de corrupção como as que atingiram a Petrobras.

Sarney disse que as denúncias que envolvem a estatal "envergonham" o país e prometeu reapresentar projeto, de sua autoria, que cria um estatuto para as estatais.

"Eu vou deixar como última presença minha no Legislativo esse projeto. Se tivesse sido feito, nós não teríamos esse problema que estamos tendo e lamentando, e de certo modo está envergonhando o Brasil, que é o problema da Petrobras."

Ao defender uma ampla reforma política que inclui o fim do financiamento privado das campanhas eleitorais, Sarney disse que seu principal "erro" foi ter permanecido na vida pública após deixar a Presidência da República.

"Penso que é preciso proibir que os ex-presidentes ocupem qualquer cargo público, mesmo que seja eletivo. Foi um erro que cometi ter voltado."

Sarney disse não ser possível mais "tolerar" o sistema político brasileiro, responsável por "todo o resto" que acontece no país. O peemedebista defendeu a redução no número de partidos, a maioria formada por "feudos pessoais", assim como a implementação do sistema parlamentarista no Brasil. "A presidente Dilma marcará a história do Brasil se fizer essa mudança de regime para o país."

Sarney também defendeu o fim das medidas provisórias, instrumento que o peemedebista considera a "deformação" do regime democrático. "O Executivo legisla e o parlamento fica no discurso. As leis são da pior qualidade e as MPs recebem penduricalhos que nada têm a ver com elas para possibilitar negociações feitas a serviço de lobistas."

O senador disse ser favorável à fixação de um teto para as doações privadas às campanhas eleitorais, assim como o voto distrital e lista fechada para a escolha dos candidatos.

Discurso

Sarney falou para um plenário vazio. O peemedebista escolheu o primeiro horário dedicado aos discursos na sessão de quinta-feira  (18) --que é tradicionalmente esvaziada no Senado-- para fazer sua despedida. A escolha, segundo ele, foi proposital.

"Eu quis fazer cedo para que não tivesse ninguém mesmo, para falar para as cadeiras vazias. Mas a Casa está enchendo", afirmou.

Diversos senadores foram ao plenário homenagear Sarney. Com o fim do mandato, ele disse que vai dedicar seu tempo ao seu único hobbie: a leitura. "Acredito que passei 20% da minha vida lendo. Não tenho outra dedicação para encher meu ócio, senão o prazer de ler."

No discurso, o senador fez um histórico de suas principais propostas e ações na vida política, com destaque para as voltadas ao setor cultural. "A minha causa, que sempre busquei aqui, foi a cultura. Por ela lutei e para ela deixei alguns instrumentos", afirmou.

O senador encerrou sua fala, antes de receber as homenagens de colegas, com um poema feito para a ocasião. Em um trecho, afirma que deixa no Senado uma palavra: gratidão. "Saio feliz, sem nenhum ressentimento. Ai, meu Senado, tenho saudades do futuro."

Histórico

Presidente da República que assumiu o cargo na transição entre a ditadura militar (1964-1985) e os governos democráticos, Sarney foi deputado federal, senador e governador do Maranhão. Assumiu o comando do país por ser vice de Tancredo Neves, que morreu na véspera de tomar posse, em 1985.

Em seu governo, implantou o Plano Cruzado e viu o país ser dominado pela inflação crescente. Entregou o governo com a economia desestruturada, mas é reconhecido como um dos fiadores da estabilização política do país.

Ocupou seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados em 1955, quando tinha 25 anos. De lá para cá, se elegeu para três mandatos na Câmara, outros quatro no Senado, além de ter governado o Maranhão. É membro da Academia Brasileira de Letras e foi colunista da Folha de S.Paulo.

O peso político de Sarney decaiu ao longo do governo Dilma Rousseff. Apesar de manter suas indicações no governo, a maioria das decisões cotidianas relativas à aliança PT-PMDB foi tomada pela trinca Michel Temer (vice-presidente), Renan Calheiros (presidente do Senado) e Henrique Eduardo Alves (presidente da Câmara).

Apesar do novo cenário, Sarney continuou sendo ouvido sobre questões importantes ao PMDB. Mas deixou o protagonismo que alcançou durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, quando presidiu o Senado e esteve no centro das decisões do país.

O ex-presidente o blindou durante a grave crise decorrente da revelação de que o Senado tinha diversas nomeações feitas por meio de atos secretos, quando o petista disse que o peemedebista não podia ser tratado como "uma pessoa comum".

Em 2009, no comando da instituição, foi protagonista do escândalo em que 511 medidas administrativas deixaram de ser publicadas. O caso motivou dez representações contra Sarney, todas arquivadas pelo Conselho de Ética da Casa, na época controlado por aliados.

Parentes de Sarney, do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e de vários outros senadores foram contratados e exonerados da Casa por meio desse mecanismo. Apesar da crise, acabou reeleito para o Senado em 2011.

O senador ainda teve o nome envolvido nos desdobramentos da Operação Boi Barrica da Polícia Federal, que envolveu seu filho do meio, o empresário Fernando.

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