Dissidentes veem reaproximação com desconfiança

Apesar de considerar a decisão anunciada pelos dois governos como o fim de uma era, a blogueira opositora cubana Yoani Sánchez, foi uma das primeiras a questionar o real impacto da vitória castrista

iG Minas Gerais | COM AGÊNCIAS |

Dissidentes cubanos que vivem na ilha e no exterior receberam com surpresa e desconfiança o movimento de aproximação entre o regime de Raúl Castro e o governo americano. Apesar de considerar a decisão anunciada pelos dois governos como o fim de uma era, a blogueira opositora cubana Yoani Sánchez, 39, foi uma das primeiras a questionar o real impacto da vitória castrista. O governo cubano planeja outro movimento para voltar a estar em posição de força com o governo dos EUA?, Questionou, em seu site de notícias, o 14ymedio. Para Yoani, os cubanos podem aguardar semanas de aclamações, nas quais o regime se proclamará vencedor de sua última batalha.

O jornalista cubano Alejandro González, 56, integrante do chamado Grupo dos 75 -formado por presos políticos detidos em 2003-, comemorou a libertação do norte-americano Alan Gross e o anúncio de que 53 prisioneiros cubanos também deixariam a prisão. NECESSIDADE Ele, contudo, diz entender que o regime deu este passo mais movido pela necessidade que pela vontade. O governo cubano está numa situação econômica horrível, a Venezuela, sua aliada, também passa por uma crise inédita. O governo não tinha alternativa, mas quero pensar que há um compromisso para avançar, disse à reportagem González, que foi libertado em 2008 e seguiu para a Espanha, onde vive até hoje. Para ele, é preciso saber agora se a aproximação com os EUA se traduzirá em benefício para o povo cubano. O governo cubano tem que ratificar os pactos de direitos civis, econômicos, políticos e culturais como uma mensagem de boa vontade, e criar uma nova Constituição, um novo marco jurídico que garanta direitos à população.

A exilada Elena Larrinaga de Luis, que dirige o Observatório Cubano de Direitos Humanos, em Madri, classificou este como um momento histórico, mas evitou demonstrar muito otimismo. A gente sempre fica na dúvida sobre a vontade política real do regime cubano, disse. O historiador cubano Rafael Rojas, residente no México, avalia que, apesar de acabar com as diferenças no âmbito diplomático, a retomada não põe fim ao conflito histórico entre EUA e Cuba.

Este subsistirá enquanto persistir em Cuba um regime não democrático, disse. Para ele, a normalização diplomática entre os dois países será complicadíssima e com resistências em Havana e Washington. Os dois governos deveriam reduzir os entraves por meio da interlocução com suas respectivas oposições. O grupo opositor Damas de Branco, formado por mulheres, mães e filhas de presos políticos, criticou o acordo pelo Twitter. A decisão de libertar espiões é um erro que prejudica a segurança dos EUA e a causa da liberdade em Cuba.