Aproximação abre nova era de globalização

Posição do presidente dos EUA reforça o começo de um período de interdependência com Cuba

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Revolução. Após viver décadas num regime socialista liderado por Fidel Castro, idosas cubanas assistiram ao pronunciamento do irmão do ex-presidente, Raúl Castro, na TV na tarde de ontem
Yamil LAGE/afp
Revolução. Após viver décadas num regime socialista liderado por Fidel Castro, idosas cubanas assistiram ao pronunciamento do irmão do ex-presidente, Raúl Castro, na TV na tarde de ontem

A abertura das relações entre Estados Unidos e Cuba é um marco histórico. Ela representa uma quebra de tabu e de paradigma na política externa desses países e aponta para uma nova era que especialistas chamam de “reglobalização” – quando voltaremos a ver mais princípios de livre-comércio e os países voltarão a depender uns dos outros para a fabricação de bens. As mudanças, porém, ainda demorarão para acontecer. Nos Estados Unidos, o Congresso é um dos principais formuladores de políticas externas. Assim, a Casa Branca depende do órgão para estipular prazos e a forma como essa abertura será realizada. Como o partido de Obama levou uma derrota histórica nas últimas eleições, o prognóstico não é dos mais animadores. “No melhor dos cenários, as mudanças podem começar ainda no mandato de Obama (até 2017). No pior, o Congresso pode começar a impor uma série de obstáculos e isso ficar para o próximo governo”, afirma Marcos Toyjo, professor de relações internacionais da Universidade de Columbia, nos EUA. O problema da segunda opção é o prognóstico das próximas eleições. “Há a possibilidade de uma vitória de Jeb Bush, ex-governador da Flórida, republicano”, comenta o professor. Nesse caso, a efetivação das mudanças fica ainda mais longe. Os senadores republicanos Lindsay Graham e John McCain já se posicionaram contra a abertura. Eles a avaliaram como um “declínio nos valores norte-americanos”. Isso pode ser considerado um indicativo do desafio que a Casa Branca deverá enfrentar para implementar essa abertura. Divergência. Do ponto de vista dos cubanos refugiados nos Estados Unidos, opositores do governo de Castro, a abertura vinda da Casa Branca significa uma derrota. Refugiados em Miami já começaram, na tarde de ontem, a acusar Obama de “conspiração” com Castro. Para quem mora em Cuba, por outro lado, a notícia é boa. “Isso é como uma injeção de oxigênio, um desejo que se tornou realidade porque, com isso, superamos nossas diferenças”, disse o cubano Carlos Gonzalez, 32. ‘Reglobalização’. abertura anunciada hoje inaugura também uma nova era. “Essa mudança mostra que os Estados Unidos estão olhando para Cuba de um ponto de vista muito pragmático. Isso mostra uma tendência muito forte à interdependência entre os países”, completa Pedro Neves, professor de relações internacionais do Centro Universitário Uni-BH. Ele ressalta outro ponto de vista sobre o significado do anúncio de ontem. “Podemos pensar nessa ação como uma tentativa de enfraquecer o regime cubano e pressionar na direção da democracia. A partir do momento em que você não tem mais uma economia que justifique que o governo tutele seu próprio povo, talvez ele não tenha como se justificar”, considera.

Brasil Dívida. Na época da Revolução Cubana, em 1959, havia um laboratório farmacêutico brasileiro em Cuba. O país nacionalizou os ativos industriais e nunca pagou aos proprietários dessa nem das demais empresas.

Limite de charutos cubanos Enquanto o mundo tenta entender quais serão as consequências da aproximação entre os EUA e Cuba, norte-americanos já planejam suas próximas férias à ilha socialista. Porém, apesar da abertura, turistas só poderão levar US$ 400 de bens de volta para casa. Desses, somente US$ 100 poderão ser em produtos alcoólicos ou de tabaco. Antes da mudança, qualquer importação era proibida.

Farc anunciam cessar-fogo Em meio ao anúncio da colaboração entre EUA e Cuba, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) surpreenderam ontem ao anunciar na capital cubana um cessar-fogo unilateral na Colômbia. Em anos recentes, o grupo já havia declarado tréguas durante feriados, mas nunca haviam dito que “o cessar-fogo deve virar um armistício”.

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