Alimentando-se dos ossos do ofício

Longa de estreia do diretor Dan Gilroy revela engrenagens do jornalismo atual

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Transformaçao. Jake Gyllenhaal perdeu 10kg para fazer o personagem see aproximar mais da imagem de um coite
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Transformaçao. Jake Gyllenhaal perdeu 10kg para fazer o personagem see aproximar mais da imagem de um coite

A máxima da linguiça – não se deve ver como ela é feita caso se queira consumi-la – provavelmente não se aplica a nenhuma outra área melhor que ao jornalismo. Basta acompanhar um dia em uma redação para nunca mais acreditar em nada do que se diz em um noticiário.

Mas é exatamente isso que faz “O Abutre”, estreia de hoje nos cinemas. O longa de Dan Gilroy, que estreia na direção após escrever roteiros como “O Legado Bourne”, é um estudo de personagem acompanhando o protagonista Lou Bloom (Jake Gyllenhaal). Desempregado e determinado a vencer na vida, ele se torna um vídeo-repórter freelancer, passando as madrugadas em claro registrando crimes brutais para os jornais matinais de Los Angeles.

E como bem coloca Nina (Rene Russo, fazendo sua versão de Faye Dunaway em “Rede de Intrigas”), a diretora de jornalismo que passa a comprar o trabalho de Lou, “o que interessa são crimes gráficos, com sangue, que fotografem bem, em regiões suburbanas, de preferência com vítimas brancas e perpetuadores negros que confirmem a preocupação do público de que a violência está chegando na rua dele”.

A exemplo do jornalismo no Brasil, não interessa informar ou fazer uma análise aprofundada da questão da segurança pública. O objetivo é construir uma narrativa que se conforme aos preconceitos do consumidor – e, consequentemente, que venda. O jornalismo não é uma função social, mas sim um negócio.

E Bloom é uma peça que se encaixa perfeitamente nessa máquina porque, como o espectador vai se dando com o passar da história, ele é um sociopata. Como o próprio protagonista diz, se você encontrar com ele, provavelmente está no pior dia da sua vida. E Bloom, que deixa o protagonista de Kirk Douglas em “A Montanha dos Sete Abutres” no chinelo, não tem o mínimo de empatia ou reação emocional ao que está filmando.

É tudo uma técnica a ser aprendida, como operar uma máquina em uma fábrica – e o protagonista está decidido a ser o melhor. O que significa, num primeiro momento, entender o cenário que Nina lhe descreve, para depois ser capaz de encená-lo e, finalmente, manipulá-lo de acordo com seus interesses. Uma trajetória assustadora e repugnante que o roteiro apresenta pelo ponto de vista de Bloom, o que faz com que o espectador chegue a torcer ao mesmo tempo em o que sente asco por ele.

Porque Bloom é daquelas pessoas que, quando perguntado numa entrevista de emprego qual sua maior qualidade, responde “determinação”. E para a maior falha, também “determinação”. Ele é pura ambição, sem nenhum limite moral para chegar aonde deseja. Não é por acaso que seus diálogos parecem todos saídos daqueles cursos online de empreendedorismo e recursos humanos. A fórmula cega de vencer a qualquer custo desse discurso é o canal perfeito que Bloom encontrou para dar vazão à sua ambição sociopática.

E reconhecendo aqui o Travis Bickle/“Taxi Driver” de sua carreira, Gyllenhaal devora com unhas e dentes esse coiote-abutre que se alimenta dos restos da desgraça alheia. Mais do que os 10kg que perdeu, o ator constrói Bloom no olhar fixo, tão vazio quanto vidrado, ao mesmo tempo falsamente gentil e ameaçador, e nos movimentos calculados e metódicos, quase como alguém que se esforça mal para parecer humano. E mesmo quando ele esboça sua única reação emocional autêntica no filme, a frustração por perder uma pauta para um concorrente, o resultado é ainda mais assustador.

Gilroy filma esse “animal” em uma Los Angeles noturna, nada glamourosa. E povoa seu universo com pessoas tão moralmente questionáveis quanto ele. E o resultado disso é que “O Abutre” não é um filme agradável, e não existe ninguém ali muito simpático por quem se possa torcer (no máximo, o parceiro de Lou, que não é lá flor que se cheire). Resta a você escolher entre a crueza da realidade do longa e a narrativa maniqueísta construída pelo jornalismo.

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