Passado e futuro

iG Minas Gerais |

Quem já foi a Cuba alguma vez na vida, com a cabeça e o coração abertos, volta de lá com um misto de sensações contraditórias. Há algo de especial no ar daquela pequena ilha no meio do mar do Caribe, onde o tempo parece ter parado. Não só os carros velhos, a escassez de produtos modernos, inclusive alimentos, e o casario antigo – muitos imóveis estão literalmente caindo aos pedaços – dão a impressão de termos entrado numa máquina do tempo e retornado algumas décadas. A sensação de nostalgia e certo saudosismo, de uma época não necessariamente vivenciada, estão presentes, na verdade, no modo de viver dos cubanos. Há no povo de Cuba, em Havana e no interior do país, certa alegria ingênua perdida há muito no mundo capitalista. Pessoas sentadas à porta de casa batendo papo com os vizinhos, adolescentes namorando sábado à noite na praça e tomando sorvete, filas para entrar no cinema de rua, pessoas andando despreocupadas durante a madrugada sem nenhum temor de violência. Apesar do isolamento imposto tanto de fora para dentro como também de dentro para fora, quem vive em Cuba está incrivelmente bem informado. As pessoas sabem e gostam muito do Brasil, debatem a crise internacional, falam de música, filosofia com entusiasmo e têm noção das perdas e dos ganhos da clausura na qual vivem há mais de cinco décadas aquela ilhota. O sentimento de orgulho pela história do país e de seus líderes é forte entre jovens, adultos e idosos, mas também é igualmente forte a vontade de mudança e de mais liberdade. O sistema socialista de Cuba está em crise desde o fim da União Soviética e da queda do Muro de Berlim há mais de duas décadas. O país tem sobrevivido graças a aberturas graduais, principalmente no setor de turismo, as quais também trazem uma série de impactos não tão bem-vindos. O anúncio feito ontem pelos presidentes de Cuba, Raúl Castro, e dos Estados Unidos, Barack Obama, da retomada das negociações diplomáticas é histórico: traz esperança de dias melhores junto com incertezas sobre o futuro. O embargo norte-americano imposto a Cuba desde a década de 60, impedindo diversos outros países de também manterem relações comerciais com a ilha, é criminoso e anacrônico. Se algum dia ele já se justificou, há décadas não tem mais sentido algum, além de ser uma medida desumana. Sobre o futuro de Cuba após a reaproximação com os EUA, é impossível saber. Haverá debandada da população, um retorno de cubanos exilados, emergirá um modelo econômico socialista-capitalista similar ao chinês ou apenas se tornará mais um balneário caribenho, povoado de turistas em busca de praias, cassinos e prostitutas? Só há uma certeza: a ilha de Fidel Castro nunca mais será a mesma.

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