Presidente Lula: caniço ou errata pensante?

iG Minas Gerais |

Está em Machado de Assis, nas “Memórias Póstumas”, referência ao grande Blaise Pascal, retirado do seu “Pensamentos”: “Deixa lá dizer, Pascal, que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes”. Velho e incorrigível Machado, sempre o mesmo, aprimorado e cético, tal como Pascal, embora, em confissão do seu leito de morte, tão convicto se mostrara da sua crença católica que o seu abade confessor atestara “qu’il est mort en bon catholique”. Penso que o desejo do nosso escritor era brincar com as palavras, não com a descrença que reiterou também a sua acompanhante nas horas finais. Esta, indagando-lhe se queria que se lhe chamasse um padre, teria dispensado: “Não, seria falso”. Ora, de Pascal ficaria a certeza de que, se o ser humano acolhe o “ange”, também está exposto à “bête”, com os males que o levam a praticar; no nosso grande romancista, inoculou a convicção, da qual nunca afastou-se, de que acabamos aqui mesmo, entregues aos vermes. Seja lá como for, que tem o companheiro e ex-presidente Lula com essas divagações filosóficas? É para concluir que o ex-presidente é caniço na sua fraqueza sem despojar-se da grandeza como ser humano. Entretanto, é como errata pensante que mais se distingue nas suas atitudes, firulas de linguagem, posições políticas, erros, maus julgamentos, pendor pela mentira, pelo enganar sem escrúpulo, pela distorção dos fatos e da verdade, pela qual não demonstra qualquer apreço. E por que errata? Existe então convivência entre as duas metáforas? Há, estão em nós, e estou em que Machado de Assis, sugerindo a troca de uma palavra por outra, quis sutilmente acentuar o jogo interior entre uma e outra, até o fim dos séculos. Em Lula, ser errata é essencial para desdizer o que afirmou para servir de correção, sem deixar rastros do que asseverou publicamente e lhe saiu mal. Por não suportar desmentir-se, empurrado pela arrogância e pela aposta de que os fatos são logo esquecidos, e os espertos não têm de dar explicação. Ao seu ver, enganar não é pecado, é natural talento da inteligência. Tudo padece de valor relativo: honra, honestidade, respeito ao que pertence ao povo e roubalheira inédita. Valem os objetivos. O Lula brasileiro lida tão bem com o “ange” quanto com a “bête”. Em política, prevalece esta; logo, é preciso estabelecer com ela pactos de benefícios recíprocos. Considere-se recente entrevista sua ao “Estadão”. Nela, denuncia uma tentativa golpista no país. Quem o ousaria? Só se forem eles mesmos que estão no poder. Muito plausível. Investe-se contra a elite, sendo, ele próprio, o ápice da elite política dirigente. Meios de comunicação? Só os de confiança. Que os petistas rejeitem corruptos. Mas quem os recruta? A oposição? Ora, Estado de direito e impeachment são faces de uma mesma moeda. A Petrobras, enxovalhada, pode custar isso.

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