Juiz acusado de beneficiar traficantes é interrogado em Belo Horizonte

Homem foi preso durante operação da Polícia Federal em junho deste ano, que desmembrou uma quadrilha de tráfico internacional de drogas e de lavagem de dinheiro que faturava cerca de R$ 20 milhões por mês

iG Minas Gerais | Da Redação |

O juiz Amaury de Lima e Souza, da comarca de Juiz de Fora, na Zona da Mata, está sendo interrogado, na manhã desta quarta-feira (17), em Belo Horizonte, após o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) receber denúncia do Ministério Público contra o magistrado. Ele é acusado de envolvimento em organização criminosa, colaboração com associação para o tráfico de drogas, posse irregular de arma de fogo de uso permitido, conexão com outras organizações criminosas independentes, corrupção passiva, lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores e posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.

O interrogatório acontece no Palácio da Justiça, no centro da capital, e pode ser acompanhado pela população. A ação contra o juiz é avaliada diretamente pelo TJMG, porque, devido ao cargo, Souza possui foro privilegiado.

Relembre o caso

O juiz da Vara de Execuções Criminais de Juiz de Fora, na Zona da Mata, Amaury de Lima e Souza teve sua prisão preventiva decretada na tarde do dia 14 de junho de 2014, durante uma sessão extraordinária do Órgão Especial do Tribunal de Justiça de Minas Geras (TJMG). A justificativa dos desembargadores para negar o pedido de relaxamento de prisão feito pela defesa é a participação do magistrado em uma quadrilha de tráfico internacional de drogas desmembrada durante a Operação Athos, em junho deste ano.

Um dos delegados envolvidos na operação confirmou à reportagem de O TEMPO que Souza era um dos integrantes do grupo criminoso e que, além de usar sua influência para beneficiar os criminosos, como divulgado anteriormente, coordenava a parte jurídica do esquema.

A relatora da sessão foi a desembargadora Márcia Milanez, que além do flagrante de porte ilegal de armas, analisou todo o contexto da investigação feita pela Polícia Federal. Ela entendeu ser imprescindível a manutenção do magistrado preso.

Na sessão, ela alegou que o juiz tinha relação direta com traficantes de drogas e citou um vídeo feito pela polícia no qual ele recebe uma sacola de dinheiro da advogada Andrea Elizabeth Leão Rodrigues, também presa durante a Athos. A suspeita é que ele tenha usado esse dinheiro para comprar um Chevrolet Camaro e um apartamento de luxo. Os bens foram adquiridos poucos dias depois do encontro.

A desembargadora alegou ainda que ele pode ter influência direta sob testemunhas e chamou a atenção para a possibilidade de uma tentativa de eliminação de provas e de fuga.

Amaury de Lima e Souza ficou detido no 39º batalhão da Polícia Militar, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde, de acordo com informações do TJMG, ficará por tempo indeterminado. Participaram da sessão 25 desembargadores, mas 20 votaram. Os cinco que compõem a direção não votam. Todos foram favoráveis ao parecer da relatora – o magistrado fica detido até o fim das investigações e o julgamento.

Investigação. As investigações que desencadearam a operação Athos começaram há seis meses, mas, de acordo com informações da Polícia Federal, o nome do magistrado surgiu ao longo do processo. Um dos delegados contou que o nome dele consta como membro do grupo criminoso há cerca de três meses. A partir disso, ele passou a ser monitorado e sua relação com a advogada é uma das principais provas de ligação com a quadrilha.

Ele foi detido em junho deste ano, em Juiz de Fora. Além da participação no esquema, ele é suspeito de porte ilegal de armas.

Afastado

Perfil. Amaury Souza virou juiz em 1990, passou pelas cidades de Mercês, Teófilo Otoni, Mar de Espanha, Águas Formosas e, em 2003, foi para Juiz de Fora, onde ficou até junho de 2014.

Entenda

Athos. Deflagrada na última terça-feira pela Polícia Federal (PF) em Minas, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, a operação Athos desmembrou uma quadrilha de tráfico internacional de drogas e de lavagem de dinheiro que faturava cerca de R$ 20 milhões por mês. As drogas eram trazidas da Bolívia para Juiz de Fora, na Zona da Mata, e distribuídas pelo Brasil.

Nome. Segundo a PF, o grupo contava com uma rede de tráfico de influência, e os suspeitos viviam vida considerada luxo, sem medo de ser presos. Daí o nome da operação, uma referência ao deus grego conhecido por nada temer.

Prisões. Foram detidas 19 pessoas, dentre elas a advogada Andrea Elizabeth Leão Rodrigues, que fazia a ligação do juiz Amaury Souza com outros presos na operação, também preso. Na casa dele, havia várias armas, inclusive de uso restrito das forças policiais

Luxo. Foram apreendidos 32 carros, 11 imóveis, sete aviões, seis lanchas e uma moto aquática, avaliados em cerca de R$ 70 milhões. Também foram apreendidos 600 kg de cocaína e quase duas toneladas de maconha.

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