Virada do ano será especialmente desconfortável para a presidente

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Poucas vezes, desde o início da crise do petrolão, a temperatura política não esquentou tanto em Brasília como aconteceu na semana cheia de significados como a que passou. A demora na definição da equipe econômica do governo e a sucessão de más notícias sobre a Petrobras mantêm o mercado impaciente. Além do petrolão, a reforma ministerial e a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado produzem muita tensão e expectativa. Discurso do procurador geral da República, Rodrigo Janot, com forte crítica à maneira olímpica como o governo tem reagido às denúncias de corrupção, foi um dos fatores da combustão. “A sociedade espera é a mais completa e profunda apuração dos ilícitos perpetrados, com a punição de todos os envolvidos”, afirmou ele, sugerindo a demissão da diretoria da estatal. Dois dias depois, nova denúncia agravou ainda mais a exposição crítica da Petrobras: uma ex-gerente disse ao jornal “Valor” que a diretoria da estatal foi advertida sobre as irregularidades antes da operação Lava Jato, reforçando a fala do procurador. Janot resolveu agir de forma tão dura depois de ler a íntegra da delação premiada do doleiro Alberto Youssef. Ele ficou indignado com o alcance e a gravidade das denúncias. Aos olhos do representante máximo do Ministério Público, não só os fatos são estarrecedores, como a extensão da lista de implicados é muito abrangente. Supera qualquer expectativa negativa. A denúncia de 36 executivos e consultores pelo MP na operação Lava Jato foi vista como positiva, mas incompleta. Onde estão os políticos? E onde estão as demais empresas notoriamente envolvidas no esquema que sempre alimentou o mundo político? A resposta vem por meio da certeza de que a operação Lava Jato não quer se esborrifar no STF por conta de erros básicos de natureza processual, como as espalhafatosas operações Castelo de Areia e Satiagraha. Brasília foi, ainda, surpreendida pela decisão intempestiva com a qual o ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU), Jorge Hage, pediu demissão, alegando carência de recursos e de quadros para combater a corrupção. Há um mês ele esperava resposta à solicitação de uma audiência com a presidente para entregar-lhe a carta com o pedido de substituição. Na mesma linha, o ministro Dias Toffoli, em sessão do TSE que julgava as contas da campanha de Dilma, acusou o governo de desprestigiar o Judiciário com a demora na nomeação dos ministros para os cargos vagos (alguns há mais de ano). O ex-chefe da Advocacia Geral da União (AGU) fez questão de frisar, na leitura de seu voto, que havia grave estranhamento diante das críticas do Planalto a sua decisão de designar para relator do processo Gilmar Mendes, adversário dos petistas. Para piorar, as notícias que vêm dos Estados Unidos sobre a Petrobras são graves. Duas “class actions” vão cobrar algumas centenas de milhões de dólares pela má gestão da empresa. Altas autoridades do país percebem que o Palácio do Planalto não se deu conta da seriedade das investigações da Security Exchange Committee (SEC) e do Departamento de Justiça (DOJ) em relação à estatal e a seus diretores e conselheiros. A virada do ano tem se mostrado especialmente desconfortável para a presidente Dilma. Ela tem poucos dias para decidir seu novo ministério. Talvez fosse mais prudente avançar na consolidação da equipe econômica e nas medidas de ajuste. Escolhas apressadas, feitas em momentos difíceis, podem ter custo ainda mais alto.

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