O buraco é mais embaixo

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Há pouco mais de uma semana, fiquei sabendo que, no dia anterior, uma conhecida da minha família foi abusada sexualmente na rua, a caminho do trabalho. Fiquei em choque. A notícia dada por minha irmã acabou com o meu dia, a minha semana, o resto de ano. Só pensava na dor física e emocional que ela está passando. C. acaba de entrar na triste estatística de que a cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil. Quando ainda lidava com esse murro no estômago, descubro que um deputado federal, que há poucos meses recebeu quase meio milhão de votos no Rio de Janeiro, disse a uma colega sua que não a estupraria porque ela não merecia. A frase dita pelo parlamentar, que, pelo ofício, recebe o tratamento de “Vossa Excelência”, choca em todos os níveis. Mas principalmente porque a primeira definição de “merecer” nos dicionários é “ser digno de”. E, pasmem, foi exatamente essa definição a que se referiu o deputado quando um site de notícias lhe perguntou o que ele quis dizer com a frase. “Ela não merece porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece”, afirmou ele, como que dizendo “ela não é digna desse prêmio de ser estuprada por mim”. O homem que proferiu essas palavras infames há muito vem colecionando impropérios. É reconhecidamente homofóbico, racista, sexista, misógino. Ele já embrulhou o estômago do ator Stephen Fry, quando este o entrevistou para o seu documentário sobre homofobia no mundo. Na última semana, foi citado em jornais internacionais por causa da sua frase nefasta sobre estupro. Mas ele é um deputado legitimamente eleito, que acabou de receber exatos 464 mil votos para um novo mandato, o que lhe garantiu o título de deputado federal mais bem votado do Rio de Janeiro. Sua página no Facebook registra mais de 950 mil curtidas. Quando C. é estuprada, todas as mulheres o são. Quando o deputado ofende uma mulher, todas as mulheres são ofendidas. As palavras desse homem não atingem apenas as vítimas de estupro, os gays, os negros, mas todas as pessoas que lutam pela dignidade humana, porque essas palavras promovem a violência contra as mulheres, a homofobia e o racismo. Mas ele não está sozinho. Há, por trás dele, uma multidão que o legitima e o defende, incluindo aí mulheres, homossexuais e negros. O buraco chamado Bolsonaro é muito mais embaixo. Fiquemos alertas!

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