Vocação que vem de família

Regina Souza lança álbum com versões em português de canções norte-americanas das décadas de 1930 a 1950

iG Minas Gerais | fábio corrêa |

Tio. Chico Mário foi a maior inspiração para a cantora mineira driblar as dificuldades no financiamento do álbum “Inversões”
MARCIA CHARNIZON/DIVULGAÇÃO
Tio. Chico Mário foi a maior inspiração para a cantora mineira driblar as dificuldades no financiamento do álbum “Inversões”

Para uma cantora brasileira, versões são aquelas canções compostas em idioma estrangeiro e que recebem letra em português. Da mesma perspectiva, seria lógico, para ela, chamar de “inversões” músicas de compositores brasileiros que recebem letras em outro idioma. Partindo dessa ideia, a mineira Regina Souza batizou o novo disco seguindo essa linha de raciocínio. “Inversões” traz tanto clássicos do cancioneiro norte-americano cantadas em português, como “Cry me a River” e “Blue Moon”, quanto canções de compositores brasileiros, como Tom Jobim e Chico Buarque, versadas em francês, italiano e espanhol. Hoje, ás 19h, a cantora lança o disco em noite de autógrafos no Café com Letras do CCBB, na praça da Liberdade. A falta de canções em inglês pode soar estranho à primeira vista. Para Regina, porém, a ausência faz muito sentido. “Venho de uma família que sofreu muito com a ditadura”, conta. “Acho que é um bloqueio da infância, de tanto ouvir falar dessa coisa do imperialismo norte-americano. De certa forma, a gente fica com isso na cabeça”, reflete. A interpretação em outros idiomas, diga-se de passagem, nunca foi um problema para a cantora. Nos 23 anos de carreira, ela já cantou em russo, iídiche, ladino (judeu-espanhol) e hebraico – esta última, inclusive, rendeu com Marina Machado o CD “Desoriente um País”, com canções na língua de Israel. “Está certo que o mundo mudou”, observa Regina, que teve, além do canto lírico, a MPB como uma das bases de sua formação musical. Porém, a diferença para a geração mais jovem fica clara na filha de 12 anos. “Fico observando ela ouvindo rádio e absorvendo todas aquelas canções norte-americanas. Acaba que os mais jovem se formam sem conhecer a música brasileira”. Por sinal, a família é uma das balizas na vida da cantora. A história de perseguição no regime militar, por exemplo, remete aos tios ilustres por parte de mãe: Betinho, Henfil e Chico Mário. Do compositor e violonista Chico, por exemplo, veio a inspiração para a forma encontrada por Regina para captar recursos para o disco. Em 1980, ele resolveu lançar o LP “Revolta dos Palhaços” e, para financiá-lo, enviou cartas para diversos amigos e conhecidos oferecendo o disco antecipadamente. “Naquela época, quem não tinha contrato com uma grande gravadora não existia. Era muito mais difícil”, recapitula a sobrinha, que recorda a campanha apoiada por toda a família. Por fim, o disco de Chico Mário saiu – e, no encarte, trazia assinaturas de todos os colaboradores. Assim, logo que o conceito de “Inversões” surgiu em conversas com o diretor artístico Pedrinho Alves Madeira, a lembrança da ideia de Chico Mário se mostrou providencial. Por e-mail, Regina apresentou o projeto para familiares, amigos e amigos de amigos e ofereceu as vendas antecipadas. O resultado são os 170 colaboradores, todos devidamente citados no encarte de “Inversões”, e que, pouco a pouco, praticamente esgotaram as mil cópias do CD. “Aprendi muito com meu tio, que era um artista com muita coragem”, diz Regina. E, mesmo tendo morrido em 1988, Chico Mário continua dando uma ajuda à sobrinha. “Para dar sorte, mandei a primeira carta pro Marcos \[filho de Chico\]” conta. “Por tudo isso, esse disco é dedicado ao meu tio”. Sobrenome. Tendo utilizado, no começo da carreira Regina Sposito como nome artístico, a cantora de 48 anos acabou seguindo o conselho de uma irmã de Chico. “Minha tia Filó sempre falava que devia usar o Souza, que tem uma vibração forte pra nós, as mulheres da família. O próprio Betinho foi iniciado por elas na leitura”, explica. “Foi no meu lado materno que tive mais proximidade com o universo da arte, da cultura, da música.” O lado italiano dos Sposito, entretanto, não ficou pra trás. Mesmo sem saber falar a língua de Dante, Regina, que também é atriz, participou de “Os Gigantes da Montanha”, montagem do Grupo Galpão, cantando no idioma. “Acho que é uma espécie de memória molecular, pois cantar em italiano é muito natural pra mim”, conta. No disco, a facilidade pode ser conferida numa típica “inversão”: a adaptação de Chico Buarque para a sua “Samba e Amor” – da época do exílio do cantor e compositor, em Roma.

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