Onde fica o fundo do poço?

iG Minas Gerais |

O ponto final da denúncia do petrolão é tão longínquo e imprevisível quanto a última gota de petróleo do pré-sal. A sujeira se alastra, de fato, como um vazamento de matéria viscosa volumosa. Muitos e muitos nomes deverão ser atingidos, assim como diversos setores das iniciativas pública e privada. Nestes dias, em gabinetes confortáveis, em Brasília, São Paulo ou qualquer outra capital, certamente há homens e mulheres poderosos roendo as unhas, angustiados pela iminência de um juízo final prévio. Alguma dimensão do tamanho do buraco foi dada na última quinta-feira, quando o procurador geral da República se deslocou até Curitiba para abençoar a força-tarefa que toca a operação Lava Jato. As falas de Rodrigo Janot e do procurador Deltan Dellagnol foram de estremecer aqueles que já estão atrás das grades e também os que se consomem de medo à espera em suas escrivaninhas. Diante das explicações dos doutores, o que não sentiram os familiares dos empreiteiros detidos e os funcionários dessas empreiteiras sujas? Duas certezas e uma suspeita: uma, é que o Natal de muita gente rica terá mais cara de velório neste ano, e duas, que a sangria será longa e lenta. Já a suspeita é a de que nem o Ministério Público e a Polícia Federal sabem, atualmente, onde é o fundo do poço. O esquema que Dellagnol descreveu como “fluxograma do dinheiro” demonstrou a complexidade, a engenharia do crime de lavagem de dinheiro posta em curso por meio do doleiro Youssef. Até os negócios dos muambeiros da 25 de Março entraram na roda. Como o clube das empreiteiras é seleto e onipresente no território brasileiro, é de se supor que o modus operandi empregado não se restringia aos serviços prestados à Petrobras. Ou os diretores de outras áreas estatais são mais santos e o núcleo da maldade era exclusividade da petrolífera? O óleo se espalha no espaço setorial e também no tempo. Contamina esta, aquela e aquela outra gestão. Indício disso é o aceno a um desagravo a Paulo Francis. Revelou-se só agora, 17 anos após a morte do jornalista, quem foi o “garganta profunda” que apontou para ele a existência de corrupção ou caixa 2 na Petrobras. As acusações feitas pelo boquirroto Francis, que não tinha qualquer prova, renderam-lhe processo movido pelos diretores da estatal. Derrotado na Justiça, o correspondente internacional foi condenado a arcar com uma indenização astronômica, que, dizem os amigos, traduziu-se no infarto que o vitimou. Quem há de dizer agora que não havia verdade naquela denúncia e que, havendo, não se tratava de uma ancestralidade das histórias protagonizadas por Paulo Roberto Costa et al.? Agora, por quanto tempo Dilma conseguirá segurar a parceira Graça Foster no comando da empresa? Parece que não dá mais para a companheira. O processo de fritura, agora com óleo caseiro, tem o mesmo cheiro de quando alguns ministros de Estado foram saídos desta para uma melhor, entre 2005 e 2006. Se o mesmo não se der com Graça, os papéis e, logo, o patrimônio da estatal seguirão derretendo na Bolsa e as manchas acabarão por macular o avental da presidente.

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