Abusos da ditadura na Canastra

Moradores da serra relembram que foram obrigados a entregar suas casas aos militares

iG Minas Gerais | lucas ragazzi * |

À força. Documentos históricos apontam que pelo menos 179 famílias, à época, foram retiradas de suas casas na Serra da Canastra
Gustavo Cepoline/divulgação
À força. Documentos históricos apontam que pelo menos 179 famílias, à época, foram retiradas de suas casas na Serra da Canastra

Na semana em que foi entregue o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que investigou por quase três anos os crimes cometidos durante a ditadura militar no Brasil, uma história mineira, escondida pelo passar dos anos, é finalmente revelada. Há cerca de 40 anos, a Serra da Canastra, localizada no Centro-sul de Minas, foi cenário de um dos episódios mais violentos protagonizados pelo regime que dominou o país entre 1964 e 1985. Apesar de pouco conhecido, o relato de desapropriações forçadas, espancamentos e tortura segue vivo na memória de quem foi vítima.

Por estar em uma localização estratégica, logo acima da represa de Furnas, e alvo, segundo o governo militar, de ameaças vindas de grupos de guerrilha da região, a ditadura logo viu a necessidade de criar um dispositivo de segurança: o Parque Nacional da Serra da Canastra. Cenário de dezenas de cachoeiras e de uma fauna única, ali está a nascente do rio São Francisco.

As mais de 170 famílias que moravam na região, distribuídas em pequenas vilas, se transformaram em obstáculo para os planos do governo militar. Assim, trabalhadores rurais, fazendeiros, indígenas e operários foram obrigados, a entregar seus terrenos.

Amparado por uma decisão de 1974, que declarou a área do parque como de “interesse social”, coube ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ligado ao Ministério da Agricultura, executar as desapropriações.

Nilta Sobral, 58, conta que sua família foi a primeira a abandonar o local. “Eles chegavam, mostravam os documentos e já saíam mandando a gente se mudar. Ficamos com medo e nos mudamos, levando só as roupas e alguns pertences. A casa, com todos os móveis, foi logo destruída” diz.

Espancamentos. Emocionada, Nilta conta que sua história, apesar de dramática, é uma das menos violentas. “Eles batiam sem dó em quem não atendesse o que eles mandavam. Atiravam nos porcos, colocavam fogo nas plantações, destruíam os baldes de leite e o queijo produzido nas fazendas. Um horror”.

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