O preço e mais um pouco

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Ohomem já aparentava ter naturalmente a cara fechada, observei enquanto eu, como ele, aguardávamos a vez de nosso número na senha do cartório. Percebi que ele era estrangeiro pelo sotaque nas poucas frases trocadas com a esposa, uma brasileira. A vez dele chegou primeiro e me distrai com alguma coisa até que alguns minutos depois o tom de voz mais elevado no guichê chamou minha atenção. O estrangeiro questionava porque o serviço a ser pago, já tabelado, trazia outras taxas adicionais. A moça do lado de dentro, protegida por um vidro, argumentava que não era apenas aquele serviço, haviam outros embutidos, mas ele não concordava. A esposa tentava contemporizar e ele, nervoso, não aceitava, deixando a entender que já havia passado pela mesma situação em outro cartório, e dizendo algo como, “vocês fazem os arranjos da melhor forma que convém a vocês”. Contou as cédulas da pochete com as mãos meio trêmulas de raiva, e custou até ceder aos apelos da esposa para se acalmar, o que só ocorreu quando não havia mais o que fazer ali e ele, inconformado, deixou o guichê. E certamente foi embora sem entender. Não é tão simples assim querer que um estrangeiro compreenda muita coisa da cultura brasileira, entre elas essa manobra de acrescentar penduricalhos a algo que tem um valor fixo a ser cobrado. Não deu para saber a nacionalidade dele, pelo português carregado no sotaque parecia europeu, mas em qualquer país em que as coisas funcionam normalmente, X é X, e não X+Y+Z. Depois foi a minha vez de chegar ao guichê e, pode acreditar, ao pedir um orçamento para determinado serviço, fui informado que precisaria antes fazer um reconhecimento de firma em outro cartório, não exatamente perto dali. Ir até lá, apresentar a carteira de identidade para conferirem minha assinatura, pagar uma taxa, pegar um papel e retornar para, só assim, conseguir encaminhar o pedido de orçamento que será entregue 17 dias depois. Sai pensando que se todos deixássemos a acomodação de lado, não aceitando as coisas como se elas fossem normais, e agíssemos como o estrangeiro, poderia ser diferente tanto em relação a essa arraigada cultura cartorial, quanto a muitas outras coisas que precisam ser modificadas em nosso país.

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