Mafalda faz sucesso porque é universal

Cartunistas e quadrinistas falam sobre a importância do personagem criado pelo argentino Quino

iG Minas Gerais | Juliana Baeta |

Reflexão. A homenagem de Duke aos 50 anos da Mafalda
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Reflexão. A homenagem de Duke aos 50 anos da Mafalda

O criador do quadrinho “Malvados”, André Dahmer, confessa que não é tão fã da Mafalda como de outros trabalhos do Quino como cartunista, mas reconhece que a celebração é merecida. “Todas essas homenagens são legítimas, tem que fazer mesmo. A Mafalda é atemporal porque ela trata de coisas atemporais, como o egoísmo. E é um desenho muito funcional, muito simples, muito bonito. E esse discurso do Quino sempre esteve presente em seus cartoons, mas se popularizou com a Mafalda, porque ela traz uma linguagem estética muito mais fácil e compreensível ”, disse.

Já o ilustrador Eloar Guazzelli, escancara o seu amor a personagem: “Um clássico alcança a imortalidade e não perde a atualidade porque é imbuído de uma verdade inerte. Ela se debruça sobre os conflitos com muito humor e ironia, e com essa coisa da pureza do olhar da criança. Ela tem verdade na sua concepção, ela vai ser atual sempre, infelizmente, enquanto houver preconceito, hipocrisia, injustiça social, e também enquanto houver humor, poesia e criança”, disse, além de uma confissão: “Aprendi a ler e escrever em espanhol com a Mafalda, aos 9 anos. Tinha coisas que não entendia direito naquela época, mas era apaixonado pelo desenho. Nunca li Mafalda em português. Pra gente, que é gaúcho, é um pouco diferente, porque por ser um território de fronteira, as paisagens desenhadas pelo Quino não nos são tão estranhas. Aliás, o Quino faz parte da minha formação. Foi ele que me ensinou”.

O editor da Zarabatana, Cláudio Roberto Martini, também fala com propriedade sobre o assunto. “A Mafalda continua fazendo sucesso porque é universal. Não fala só dos problemas da Argentina ou da América Latina, mas do ser humano, das relações humanas e da estrutura política que está por trás do mundo. De uma certa maneira, é triste ver que os problemas políticos e sociais abordados nas tiras continuam atuais. Isso mostra que nós não evoluímos (ou as pessoas que nos governam não evoluíram) muito em todos esses anos”.

Para o coordenador de quadrinhos da Fundação Municipal de Cultura de BH, e organizador do Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ, Afonso Andrade, a Mafalda se tornou um clássico porque houve empatia com o público. “Quando você faz uma tirinha com regularidade, você tem que criar um bom personagem. Mesmo ranzinza, a Mafalda é simpática ao público”.

O cartunista e roteirista Allan Sieber define com poucas palavras a popularidade tão atual da Mafalda: “O mundo que ela observava com olhar crítico não mudou muito, as coisas continuam sendo difíceis para quem não vive no hemisfério norte”.

E o chargista Duke, também se declara fã incondicional da Mafalda e, principalmente, de seu criador. “Pra mim ele é um dos maiores nomes mundiais, se não, o maior. É uma coisa fabulosa. A Mafalda é praticamente uma obra para adultos. A quantidade de conteúdo social presente ali é muito grande. Nunca é um humor só pelo humor, sempre tem uma pitada de crítica que gera uma reflexão”, disse.

Alexandre Beck, criador do “Armandinho”, segue a mesma temática de Quino ao usar uma criança para denunciar – só que de forma mais sutil – os problemas do mundo. “Em termos de quadrinhos, talvez ele [QUINO]seja o autor que mais tenha contribuído com este tipo de material. O que ele fazia não era entretenimento. A postura política que ele tomou, a coragem que ele teve de ir contra o sistema estabelecido no país, é um exemplo muito grande para nós. Mas eu preferia que a Mafalda não atraísse tanta gente como atrai ainda hoje, porque os problemas que o Quino levantou há 50 anos, infelizmente, continuam atuais. Se a gente tivesse resolvido isso, talvez não teria tanta gente se identificando com a Mafalda”.

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