Uma criança de 50 anos

Para conhecer, entender e amar a personagem que há meio século atrai fãs e homenagens por onde passa

iG Minas Gerais | Juliana Baeta |

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Ela nasceu para estrelar uma campanha publicitária, mas acabou ficando conhecida mundialmente por criticar, entre outras coisas, a indústria do consumo. Este ano, a personagem Mafalda, criada por Joaquin Salvador Lavado, o Quino, completa 50 anos, mas eternamente com corpinho de 6. É por isso que a Argentina, seu local de origem, está em festa com direito a uma exposição só para ela em Buenos Aires. A boa notícia é que os fãs brasileiros também vão poder experimentar este universo na Praça das Artes, em São Paulo, com a mostra ‘O Mundo de Mafalda”, entre os dias 17 de dezembro e 28 de fevereiro.

Muito além de simplesmente se sentir em uma história em quadrinhos, ao visitar a exposição, a sensação é de estar inteiramente inserido nos anos 60 e 70. E muito bem acompanhado, pela Mafaldinha e sua família, pelos seus vizinhos, e por seus companheiros inseparáveis, Manolito, Miguelito, Felipe e Suzanita. É que o ambiente foi criado justamente para deixar que o visitante experimente várias sensações que são descritas nas histórias. A reflexão, a capacidade de se indignar e a criatividade inerente a toda criança estão presentes nos inventos criados pelos personagens, nas metáforas colocadas pela pequena para representar o mundo e nas frases sagazes que provavelmente causaram mal-estar em muita gente que compactuava com o regime ditatorial na Argentina, vigente na época.

Quem vai visitar a exposição, poderá pôr na vitrola o som dos Beatles para tocar, passear pelo quarto da personagem e ver o álbum de fotografias da família; conhecer a casa dos hippies vizinhos da Mafalda; desenhar e carimbar quadrinhos no papel; criar a sua própria história alternando balõezinhos de falas e personagens e também ver a mesa da cozinha onde a menina passava por maus bocados quando descobria que o prato do dia era a terrível sopa. É quase como se a Mafalda estivesse ali, de mãozinha dada com você, enquanto te apresenta o lugar onde nasceu.

Certidão de nascimento. Foi assim: o cartunista Quino deu luz à sua cria mais conhecida para que ela ilustrasse uma propaganda em um conhecido jornal argentino, o “Clarín”. Algo deu errado – ou certo – e a Mafaldinha acabou ganhando luz própria quando, em 1964, a revista “Primera Plana” lançou sua primeira tirinha. Com a periodicidade do desenho, em pouco tempo, a tirinha era recortada da revista para ser colada por estudantes em seus cadernos ou em fachadas de comércio. Foi em 1966 que um editor resolveu lançar um livro para reunir as tirinhas da Mafalda, e ele descobriu ali, que estava diante de um sucesso irreversível: o livro se esgotou em um dia.

As tirinhas passaram a ser reproduzidas em diários das províncias argentinas, e era lida por cerca de 2 milhões de pessoas por dia. A partir de 1969, um compilado de tirinhas com prólogo de ninguém menos que o escritor Umberto Eco cativou a Itália. Em 1970 ela entrou em moda na Espanha, e em 72, na Alemanha, França, Finlândia e Portugal. Em 73, ela foi readaptada para a TV e em 75, ganhava o México.

Hoje, ela já pode ser lida em cerca de 20 línguas e parece não ter se cansado de viajar, mesmo com meio século de vida. Na contemporaneidade, ela já penetra em novos mercados e públicos, como a China, Coreia e Indonésia.

“Infelizmente, ela ainda existe”. O que faz um personagem criado na década de 60 continuar tão atual, mesmo cinquenta anos depois? E não só com a popularidade estável e inabalável, mas ainda em ascensão, conquistando cada vez mais novos mercados e novos públicos? A pergunta foi feita para sete especialistas no assunto, e a resposta foi quase unânime: porque os problemas que ela tanto criticava naquela época continuam. E enquanto houver no mundo pessoas egoístas, luta de classes e falta de humanidade, sempre vai existir a menininha com cara de brava e vestidinho vermelho pronta para desestruturar qualquer marmanjo ao chafurdar o dedo na ferida – mesmo que ele não saiba que tenha uma.

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