Guido Mantega: oito anos sobre o “touro mecânico”

Prestes a entregar cargo, ministro enfrenta saída solitária

iG Minas Gerais |

Melancolia. Políticos e especialistas chegaram a classificar a saída de Guido Mantega como melancólica
ANDRE DUSEK
Melancolia. Políticos e especialistas chegaram a classificar a saída de Guido Mantega como melancólica

Brasília. Eram quase 11h da última quarta-feira quando cerca de 300 auditores da Receita Federal faziam uma manifestação por melhores salários diante do Ministério da Fazenda. De óculos escuros, Guido Mantega chegou, entrou por uma porta que geralmente fica fechada e não foi sequer notado. A poucos dias de deixar o governo e passar o comando da economia para Joaquim Levy, Mantega vive tempos de transição solitária, mas parece conformado com o destino, que foi da bonança à tempestade, do aplauso ao calvário.

“Ser ministro da Fazenda é como cavalgar um touro mecânico. Você pode ser derrubado facilmente, a qualquer momento. Toda hora tem gente querendo derrubá-lo”, disse o ministro em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”. Desde que recebeu aviso prévio, aos 65 anos, Mantega começou a encaixotar suas memórias. Antes de desencarnar do poder, no entanto, decidiu usar a escrita como escudo para defender sua gestão.

Obstinado, ele prepara um livro para mostrar como o Brasil enfrentou a crise mundial de 2008 sem cortar empregos, além de um “dossiê” de realizações, com mais de cem páginas e gráficos coloridos. Lá estão, ano a ano, conquistas obtidas na seara econômica desde que Mantega assumiu a Fazenda, em 27 de março de 2006. Os índices revelam expansão do emprego, renda, investimento direto e até do crescimento, que chegou a 7,5% em 2010 e hoje beira a zero.

O consultor Antoninho Marmo Trevisan, amigo de Mantega, chegou a lhe perguntar por que ele não saiu do ministério após o segundo mandato de Lula, ou mesmo no fim de 2011, já no governo da presidente Dilma Rousseff, quando os indicadores ainda iam de vento em popa.

“Sabe que eu também me pergunto isso?”, respondeu Mantega. “Olha, depois de tanto tempo aguentando essa pancadaria em Brasília, você só pode ir para o céu”, provocou Trevisan.

Nascido em Gênova, Mantega não tem o “sangue quente” dos italianos e parou de tomar café para evitar adrenalina e dor no estômago. É dono de uma paciência tão elástica que amigos chegaram a compará-lo a um samurai.

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