Comissão da Verdade mineira publica relatório preliminar

Documento reconhece casos de homicídios, atentados e repressão do governo militar no Estado

iG Minas Gerais | Guilherme Reis Lucas Pavanelli |

Psicólogo. Ageu Heringer Lisboa foi preso e torturado na Delegacia de Furtos e Roubos e no 12º RI
Arquivo pessoal
Psicólogo. Ageu Heringer Lisboa foi preso e torturado na Delegacia de Furtos e Roubos e no 12º RI

Na semana em que a Comissão Nacional da Verdade (CNV) apresentou o relatório final de dois anos e meio de trabalho, o colegiado instalado em Minas para investigar violações aos direitos humanos durante a ditadura militar apresentou suas primeiras conclusões. O trabalho da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg), no entanto, só termina em setembro do ano que vem.

Em 244 páginas, o grupo reconheceu casos de homicídios, atentados e repressão do Estado na cidade e no campo. A comissão realizou seis audiências públicas em Belo Horizonte e no interior para colher depoimentos de militantes perseguidos pelo regime ditatorial. Do primeiro ano de trabalho, surgiram recomendações para ampliar as investigações e homenagear vítimas de atentados (veja infografia ao lado).

Um deles é o psicólogo Ageu Heringer Lisboa, que foi preso e torturado na Delegacia Especializada em Furtos e Roubos e no 12º Regimento de Infantaria, em Belo Horizonte. Ele relata que sofreu violências física e psicológica e ficou em isolamento sem comer e exposto a ruídos durante todo o tempo. Ele diz que não nutre “sentimentos revanchistas”, mas que é necessário que os militares assumam responsabilidade nas ações.

“A confissão já é uma condenação moral. A questão é que poucos militares admitiram torturas e opressão. Temos que denunciar esse espírito de negação deles, que justificam os atos como guerra preventiva”, declara Lisboa.

Ainda no relatório preliminar da Covemg, está a confirmação de oito assassinatos no “Massacre de Ipatinga”, chacina que vitimou operários da Usiminas em outubro de 1963, cinco meses antes do golpe militar.

A repressão também aconteceu na zona rural. O texto lista seis crimes cometidos pelo Estado contra mineiros em cidades como Governador Valadares, Bonfinópolis de Minas, Patrocínio, Chapada Gaúcha e em Marabá, no Pará.

Caso Veras. O relatório da Comissão da Verdade mineira destaca o único caso de desaparecimento político oficializado no Estado. Aos 60 anos, o jornalista Nestor Veras foi sequestrado em uma tarde de abril de 1975, no centro de Belo Horizonte. Nascido em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, ele recebeu a missão de organizar o Partido Comunista Brasileiro (PCB) em Minas. Naquela época, o “Partidão” havia sido colocado na clandestinidade, e seus filiados eram perseguidos em todo o país.

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