Regras variam para cada família

Punir os filhos é importante, mas não pode fazer a criança se sentir diminuída

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Aprendizado. A mãe e blogueira Gabriella Brandão, 34, não se arrepende dos castigos aplicados nos filhos Antônio Pedro, 4, e Luisa, 6
Arquivo pessoal
Aprendizado. A mãe e blogueira Gabriella Brandão, 34, não se arrepende dos castigos aplicados nos filhos Antônio Pedro, 4, e Luisa, 6

Se tem um ponto em que pais e especialistas concordam é que algumas regras são necessárias para disciplinar e ensinar os filhos a trilhar seus próprios caminhos. Mas qual é o limite do limite?

Na casa da farmacêutica Maria Cláudia Donzeles, 41, a “cadeira do pensamento” foi usada tantas vezes para tentar frear as malcriações do filho Arthur, 5, que a mãe confessa que foi necessário mudar a estratégia. “Teve época em que ele estava mais agitado, então aquilo ficou banal, e tive que achar outros meios, como por exemplo, cortar o desenho”, diz.

A mãe e blogueira Gabriella Brandão, 34, também não se arrepende dos métodos usados com os filhos Antônio Pedro, 4, e Luisa, 6. “O castigo é mais uma ferramenta para dar o limite, eles vão viver em uma sociedade com regras. Porém, com o excesso (de castigo) a criança vive ameaçada, amedrontada, diminuída e significa que os pais estão errando na dose”, diz a autora do blog Dicas Pais e Filhos.

Para Gabriella, a função das punições deve ser exclusivamente dos pais, e não da escola. Apesar de concordar com a posição do pediatra espanhol Carlos González, de que as crianças de hoje têm passado muito tempo longe do seus pais, ela prefere não criticar. “Minha filha foi para a escola quando tinha 1 ano e meio e meu filho mais cedo, com 1 ano, mas eles ficavam apenas quatro horas por dia no local. Alguns pais realmente precisam se ausentar o dia inteiro para sustentar os filhos. O mais preocupante é a terceirização da educação”, afirma.

A distância entre pais e filho tem pontos positivos e negativos, conforme avalia o psiquiatra e escritor, Içami Tiba. “Está interferindo mal, porque é na convivência que os pais passam os valores, mas, ao mesmo tempo, a escola profissionaliza a criança”, acredita.

Sem regras. Já quando a questão é a alimentação ou permitir que o filho durma na cama dos pais, Maria Cláudia diz que não segue muitas regras. “Ele tem o quartinho dele e se sente bem lá, mas quando meu marido viaja ele dorme na cama comigo. Com a comida já desencanei de oferecer frutas. Chantagem não funciona, então procuro caprichar nas verduras e legumes que ele come”, conta.

As experiências vividas em seu consultório fizeram a pediatra e hebeatra, Gerusa Lopes Porto, acreditar que “as crianças são o termômetro do lar”. “Se chega bem, é porque o lar é estável. Problemas todo mundo têm, mas quando a criança chega gritando, logo se percebe que a família tem algum desequilíbrio. A palavra-chave do nosso século deveria ser moderação: na alimentação, no comportamento... Tem que colocar limite, mas sem jamais perder a ternura”, afirma.

 

Emocional se refletirá no futuro  Um estudo da Escola de Economia e Ciência Política de Londres feito com mais de 9.000 crianças concluiu que a saúde emocional na infância é fator determinante e tem mais influência na felicidade futura de crianças do que dinheiro ou, até mesmo, um bom desempenho acadêmico.

A terapeuta familiar e especialista em desenvolvimento humano Heloísa Capelas afirma que isso acontece porque muitas das características que apresentamos na fase adulta são definidas durante a infância e os comportamentos que observamos daqueles que são próximos nessa fase se refletirão nas emoções futuras.

“Está na hora de começar a repensar o castigo. Ele é pedagógico, fundamental para dar noção de causa e efeito e para que a criança saiba a importância dela no sistema, isto é, se ela se mexe, o sistema mexe junto. Portanto, tudo o que ela fizer deve ter consequências. Ao mesmo tempo, o castigo mostra a desimportância dela, assim como as surras do passado. Quem merece castigo é bandido, nossos filhos não são bandidos”, acredita.

Para Heloísa, o verdadeiro abandono não é o trabalhar fora, mas o que os pais estão fazendo no tempo em que eles estão com os filhos. “Dou uma dica: olha no olhinho da sua criança, muitas vezes, com curiosidade, para descobrir quem esse menino ou menina”, diz.

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