Mineiros, os mais deprimidos

iG Minas Gerais |

Os últimos dados divulgados nesta semana pela pesquisa sobre a saúde dos brasileiros mostraram que 14% dos mineiros apresentam quadros depressivos! Enquanto a taxa nacional ficou em torno de 11%, em Minas superamos com folga todos os outros Estados. É claro que, em números absolutos, São Paulo tem a maior população atingida. Chama a atenção que Santa Catarina e Rio Grande do Sul apresentem as maiores taxas de suicídios, enquanto Minas está em oitavo lugar. Para mim, psiquiatra, confesso que surpreendeu tal fato. Por isso, lanço alguns alertas mais objetivos. Primeiro, está faltando psiquiatras no mercado. A psiquiatria passa por uma crise de formação e interesse de estudantes de medicina por especialidades clínicas. Há no mínimo um terço das vagas em psiquiatria não preenchidas, para um público que aumenta de forma epidêmica.Especialidades que trabalham com estética e cirurgias programadas, como dermatologia, plástica, oftalmologia entre outras, têm tido preferência. Segundo, os hospitais querem especialidades de alta complexidade. Cada vez mais interessa aos hospitais gerar lucro, que só pode ser obtido com exames complexos, caros e sofisticados, que especialidades cirúrgicas, cardiológicas, entre outras, disponibilizam. Reparem o desaparecimento de maternidades, hospitais pediátricos e Santas Casas, onde os procedimentos atendem casos mais simples, porém fundamentais. Terceiro, a falência do movimento antimanicomial. Histórias de terror, que recordam os antigos manicômios, como o do Juqueri, Barbacena e análogos, até hoje ecoam no inconsciente coletivo. Mas, embora bem-intencionado, o fechamento generalizado de leitos psiquiátricos produziu, após mais de 20 anos, uma anarquia no atendimento aos verdadeiros necessitados de cuidados hospitalares, ainda que por breve tempo. Esperar-se-ia que os hospitais gerais abrissem alas para a psiquiatria, o que não ocorreu, e que atendimentos ambulatoriais com equipes multiprofissionais dessem sustentação aos pacientes e familiares. Enquanto isso, “loucos desvairados” se tornam mendigos e usuários de crack. Quarto, a falência dos antidepressivos e outros psicofármacos. Estudos cada vez mais amplos têm mostrado algo terrível: a baixíssima resposta aos antidepressivos e remédios psiquiátricos da nova geração. Hoje, após anos de uso, os antidepressivos de última geração mostram resposta pouco acima dos efeitos de placebos, que respondem de 27% a 31% dos casos, e os antidepressivos caros e modernos têm tido resposta em torno de 40%. E, pior, a indústria farmacêutica tem parado de investir na pesquisa de novos produtos, pois o descrédito de novos remédios dá prejuízo. Quinto, a prevenção. Por que não inserir tais conteúdos de forma lúdica, gostosa, com linguagem fácil e usando multimeios tanto para o público geral ávido por esse conteúdo seja na TV, rádio, web, bem como em comunidades escolares? Também em empresas, o conteúdo comportamental e de relacionamento interpessoal precisa ser inserido. É investimento, não despesa! Quem não tem um parente, amigo, conhecido com a dor na alma? Quem de nós está vacinado contra a depressão?

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