Reconhecimento e valorização dos mestres da cultura

iG Minas Gerais | gustavo rocha |


Congado é uma das expressões mais importantes em Minas Gerais
FOTO: JOAO LEUS / OTEMPO
Congado é uma das expressões mais importantes em Minas Gerais

Premiar representantes de culturas em extinção e que residem na memória é uma iniciativa inédita da Fundação Municipal Cultural, que pretende não só reconhecer a importância desses mestres, como também salvaguardar a cultura que cada um deles representa. “É um patrimônio que não tem como ser guardado, ele está na pessoa”, comenta Françoise Jean, diretora de patrimônio, chefe do Departamento de Identidade, Registro e Promoção da Prefeitura de Belo Horizonte. Jean foi a presidente da comissão responsável por analisar o currículo e importância dos 27 candidatos ao título e ao prêmio de R$ 15 mil oferecido.

“A ideia do prêmio surgiu de uma demanda da própria sociedade na 3ª Conferência Municipal de Cultura. Lá, de uma maneira não muito clara, havia essa demanda de se ter alguma ajuda aos mestres”, revela. “Essa ajuda é financeira por que se constata que a maioria – se não todos – é idosa e não está (nem esteve durante a vida) formalmente inserida no mercado de trabalho”, completa.

O edital também dá visibilidade para saberes que não têm interesses mercadológicos. “É importante que as pessoas saibam que existe esta ou aquela expressão cultural”, avalia.

A comissão que avaliou os candidatos foi formada por três servidores da FMC, um membro do Conselho Municipal de Cultura e um do Conselho Deliberativo de Patrimônio da cidade. Os critérios de avaliação passaram pela atividade individual deles, mas também por sua representatividade para o segmento e para a comunidade onde estão inseridos. “Avaliamos a importância que essa pessoa tem na perpetuação desse conhecimento, seja porque essa pessoa tenha tido aprendizes ou porque são referências nesse saber. Os mestres são transmissores. Também se é uma expressão que está em risco de extinção”, diz Jean.

Um dos aspectos que também motivaram a criação do prêmio é a constatação da dificuldade que os representantes da cultura popular têm para transitar nos meandros dos editais de leis e fundos de cultura. “O prêmio é menos burocrático. A pessoa é apenas reconhecida, não precisa prestar conta”, lembra Jean.

Sobre os três agraciados, a presidente da comissão destaca a importância de cada um para resguardo de sua expressão específica. “Mestre Conga é um dos mais reconhecidos sambistas dos primórdios do samba em Belo Horizonte; Dona Isabel é simplesmente a rainha do congado em Minas Gerais; e a Dalila é reconhecida dentre quase todas as benzedeiras da cidade por sua atuação de mais de 50 anos”, comenta.

Apesar de o prêmio inédito sinalizar o reconhecimento de expressões artísticas populares, por parte do poder público, ainda é cedo para se falar em uma política clara para os “vovôs” da cultura local. “Esse tipo de problema se enquadra como uma situação previdenciária social, que extrapola a alçada da cultura. Como cuidar de artistas mais velhos e menos ativos é uma discussão que não se restringe ao âmbito municipal”, garante Jean. “A gente espera que a sociedade se aproprie do prêmio para que ele seja uma política permanente de Estado, e não de governo”, finaliza.

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