O circo está na cidade, mas não em graça

Os vereadores não confiam mesmo uns nos outros. Por qual razão nós haveremos de confiar?

iG Minas Gerais | Ricardo Corrêa |

O circo está na cidade, mas não há graça nenhuma nisso. O que se viu nas últimas semanas na Câmara Municipal de Belo Horizonte foram as mais patéticas demonstrações de que há realmente uma grave crise na representação política dos pobres cidadãos da capital mineira. Notícia após notícia, foi possível escandalizar-se com o nível das discussões e articulações para a escolha do novo presidente da Casa. Se o fim da gestão do presidente Léo Burguês seria boa oportunidade de deixar para trás os tempos da coxinha da madrasta, o começo da nova era parece ainda pior. O ápice de tamanha vergonha institucional se deu com a inovadora e bizarra ideia de confinar, manter em cárcere ou sequestrar – escolha a palavra que melhor lhe convier –, na madrugada, um grupo de vereadores aliados para que não houvesse a chance de assédio de outra candidatura, como relatou ontem a reportagem de Tâmara Teixeira em O TEMPO. Para piorar, com a presença do prefeito, como mostra a continuação da história nas páginas 3 e 4 desta edição. Tal como no “Big Brother”, os senhores vereadores ficaram uns às vistas dos outros para impedir qualquer traição. Por lá, fizeram a última ceia, que de santa, neste caso, não teve nada. Regada a bebida e carteado enquanto decidiam, longe das vistas do cidadão, quem ficaria com qual parte do poder que deveria ser de quem os elegeu. Só faltou trocar a van que usaram para se deslocar até a Casa por aqueles trenzinhos da alegria. Por R$ 7 a viagem, ainda ficaria mais barato para nós. O espetáculo do confinamento encerrou uma campanha que incluiu promessas de quebra-molas em bases eleitorais por parte da Prefeitura de Belo Horizonte e acusações de compra de votos de lá e de cá. A ponto de um dos candidatos ter orientado que seus aliados grampeassem os colegas para flagrar os que ofereciam vantagens maiores que as suas. No fim das contas, confinamento, grampo, traição e até o risco da troca de sopapos em uma sessão mais quente só mostraram que os próprios vereadores não confiam mesmo uns nos outros. Por qual razão nós, cidadãos, haveremos de confiar? Deveríamos é pensar o que andam falando de nós aí nos grupos de WhatsApp formados como entre alunos travessos ou colegas de trabalho que querem derrubar o chefe. Na manhã de ontem, enquanto um ou outro acompanhava vídeos de humor do Porta dos Fundos pelo celular, a maioria decidiu o futuro da Casa. A minoria não votou em ninguém, após a retirada das candidaturas concorrentes. Sob a alegação de que os que se levantassem contra o vencedor poderiam acabar prejudicados futuramente por quem terá a força da caneta, mostraram que democracia não parece fazer muito sentido justamente por quem nos representa nela. E foi assim que o vereador que um dia foi cassado por dar uma minguada sopa aos pobres agora virou presidente ao oferecer um pomposo jantar aos que deveriam cuidar daqueles.

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