Patrimônio imaterial de BH

Prefeitura premia Dona Isabel, Mestre Conga e Dona Dalila, representantes da cultura popular de Belo Horizonte

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Dona Isabel, a rainha pop do congado
Dona Isabel, a rainha pop do congado

Patrimônios imateriais sofrem com o passar do anos. Ao contrário de edificações, que resistem às intempéries do tempo, o imaterial reside na memória e conta, principalmente, com a oralidade para se propagar. Pensando na importância e na salvaguarda dessa memória, a Fundação Municipal de Cultura lançou o Prêmio Mestres da Cultura Popular, que consagrará hoje, às 10h, três expoentes da cultura da cidade, em solenidade no Centro de Referência da Cultural Popular e Tradicional Lagoa do Nado – o espaço será reaberto com o novo nome, após ter sido reformado, e recebe uma exposição que tem como tema justamente a cultural popular. A FMC promete programação específica para o espaço.

Representantes do congado, as escolas de samba e o ritual de benzer as pessoas para tirar maus agouros e maus-olhados recebem um importante reconhecimento hoje. São eles Dona Isabel, rainha do congado em Minas Gerais, o sambista Mestre Conga (José Luís Lourenço) e a benzedeira Dalila Senra Frabini. Para além da atuação de cada um deles, o prêmio tenta destacar expressões culturais típicas, que correm risco de extinção na capital, e, pelas dificuldades financeiras inerentes à falta de reconhecimento, concede R$ 15 mil em prêmio para cada um deles.

Sobre o prêmio, Conga se mostra otimista com um novo tempo de reconhecimento de muitos que fazem o que ele faz. “Não deixa de ser uma alegria, um entusiasmo, mas é apenas o começo de uma abertura, de nosso reconhecimento daqueles que trabalharam pela cultura popular”, comenta. A retomada do Carnaval de rua de Belo Horizonte é vista com bons olhos por ele. “Eu vejo essa abertura, amplitude que está tendo e essa liberdade que o poder público municipal tem realizado. Vários blocos de rua, têm surgido para os foliões desfilarem e se divertirem. Eu me sinto com alegria. BH está voltando a essa memória, esse patrimônio imaterial”, finaliza.

Conheça, a seguir, um pouco da história de cada um deles e de sua abnegada vida dedicada à preservação de algumas das expressões artísticas e culturais que sofrem com a possibilidade de extinção. Conhecendo a trajetória de cada um, fatalmente, se conhece um pouco da história da cultura popular de Belo Horizonte.

 

A rainha pop do congado   Dona Isabel é pop. Assim que chega ao telefone, ela logo avisa que está ocupada e ainda alerta: “É melhor você vir aqui me entrevistar, porque tem muita gente me procurando. Hoje mesmo, eu vou dar entrevista para uns franceses que não conheço ainda”, afirma. Aos 76 anos, Dona Isabel é a rainha do congado no Estado de Minas Gerais e está à frente de uma das guardas mais conhecidas e antigas da cidade: Moçambique e Congo Treze de Maio, que tem 71 anos de trajetória. No decorrer de sua vida, ela se dedicou a várias atividades para além do congado. Foi manicure, cabeleireira, fez curso de auxiliar de enfermagem, entre outras coisas. Sobre a procura que ela costuma atender, Dona Isabel acredita que sempre foi assim. “Tem gente de todo jeito. Gente que acredita e quer as mesmas coisas que a gente, e outras que não”. De espírito coletivo, ela exalta a participação de muita gente na preservação da memória do congado. “Esse prêmio representa muita coisa, não só para todos aqueles que tentam não deixar as raízes do congado morrer”. Os R$ 15 mil da premiação já têm destino certo. Serão investidos na Festa do Congado, realizada pela guarda, entre 1º e 15 de maio, anualmente. Segundo ela, somente nesse período, entre mil e 1.500 pessoas de várias partes do Estado chegam para as festividades.     O despertar do Carnaval de BH   Em um tempo em que os bairros populares, fora da avenida do Contorno, não tinham água encanada, rede de esgoto e eletricidade, Mestre Conga dava seus primeiros passos em sua juventude. O então adolescente acompanhava o “arrastão”, atrás da Escola de Samba Surpresa, e sonhava com os primeiros batuques nos instrumentos musicais com os quais estabeleceria uma parceria para o resto de sua vida. “A gente fazia cultura popular, muitas vezes, sem saber que fazia”, revela ele. “Existia um grande preconceito com quem morava nos bairros populares. A gente era chamado de ‘palhaço’, de ‘negro’, de ‘telefone’ (quando os únicos aparelhos eram da cor preta)”. Sem poder “viver de música” por toda a vida, Mestre Conga se aguentava entre múltiplos trabalhos até chegar o período do Carnaval. Sua trajetória se confunde com os desfiles das primeiras escolas de samba da cidade. “Eu comecei a acompanhar mesmo a partir de 1946”, revela. “Logo depois que a (Segunda) Guerra terminou, começou a pipocar uma série de movimentos de Carnaval. Antes não tinha muito. E também tinha a ditadura Vargas na época”, completa. “Os ensaios começavam em outubro, novembro, e, com isso, a relação nos empregos já ficava mais complicada. Quando chegava fevereiro (no Carnaval), eu era mandado embora”, relembra o artista.     O pagamento de Deus   É possível ouvir aqui e ali que Belo Horizonte é uma cidade grande que conserva muitas características de cidades do interior. Boa parte delas se revela na periferia, onde o ritmo de vida flerta com uma rotina mais calma e largada. É no bairro Santa Mônica que Dalila Fabrini dedicou boa parte dos muitos anos de sua vida à benzeção. “Mamãe jamais cobrou para benzer as pessoas. E elas sempre diziam: ‘Deus te pague’. Quando soube do prêmio, a primeira coisa que ela disse que era apenas um extensão de Deus e que todos aqueles ‘Deus te pague’ estavam voltando para ela”, revela Yolanda Fabrini, filha de Dalila, responsável pelos cuidados da mãe. Com 96 anos, Dalila segue sua rotina, ainda que não ouça muito bem e não consiga caminhar normalmente. Com tantos anos de ofício, Dona Dalila acumula várias histórias curiosas de pessoas que foram curadas graças aos seus préstimos de benzedeira. Sua filha garante que a mãe tem uma sintonia com a lua cheia para curar bronquite que é “tiro e queda”. Mas a história mais interessante envolve uma garganta e uma espinha de peixe. “Uma senhora do Paraná veio porque foi diagnosticada com câncer na garganta. Minha mãe conversou com ela, olhou para a garganta e disse que era uma espinha de peixe. Depois, ao voltar para o hospital, ela descobriu que era uma espinha mesmo”, se diverte a filha.

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