Sobre uma geração quase punk

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Cena: “Nós Somos as Mulheres!” retrata garotas punks da Suécia dos anos 1980
ZETA FILMES/DIVULGAÇÃO
Cena: “Nós Somos as Mulheres!” retrata garotas punks da Suécia dos anos 1980

No livro “Mate-me por Favor”, Joey Ramone (1951-2001) admite que achou estranho quando começou a ser chamado de punk porque, antes de sua banda e do movimento de que ela fez parte, “punk era quem dava a bunda na prisão”. A afirmação revela a maleabilidade e a identidade em fluxo do conceito. Muitas atitudes e visuais podem ser jogados nele e, se colar, é punk.

É exatamente disso que se aproveitam as protagonistas de “Nós Somos as Melhores!”, em cartaz no Belas Artes (confira roteiro na pág. 16). As três adolescentes ainda não sabem quem são. Mas têm certeza de que não são as loirinhas suecas perfeitas enquadradas pelo diretor Lukas Moodysson (“Para Sempre Lilya”) como Barbies de plástico em um comercial de TV. E para negar isso, elas decidem criar uma banda punk.

A ideia parte de Bobo (Mira Barkhammar) e Klara (Mira Grosin), duas párias na Estocolmo dos anos 1980. A melhor descrição das duas é que, além de não saberem tocar nenhum instrumento, elas são, respectivamente, a baterista e a baixista da banda – não o “frontman”.

Para essa posição, elas recrutam a também excluída Hedvig (Liv LeMoyne), cristã tão perdida e excluída quanto elas. Bobo e Klara começam o longa como uma dupla dinâmica. Um todo indissociável que o filme vai separando e moldando aos poucos. Adaptando a HQ da esposa Coco Moodysson, o diretor define uma garota sempre em reação e relação à outra – a ideia de que elas precisam daquela amizade para descobrir quem são.

Mesmo Hedvig e o garoto que cria um triângulo amoroso (que se estende um pouco demais) entre elas são ferramentas do roteiro para Bobo e Klara definirem quem são.

E o acerto de “Nós Somos as Melhores!” é que o filme faz isso pelas imperfeições e defeitos que tornam a adolescência do longa tão autêntica. Klara é um tanto egocêntrica e manipuladora, e Bobo sofre de uma baixíssima autoestima. É o choque disso que gera o real conflito da história – e acaba fazendo de Bobo sua verdadeira protagonista.

Desabrochar

Enquanto Hedvig é talentosa e Klara é bonita e bem resolvida, Bobo (que, em determinados momentos, se torna adulta para cuidar da mãe adolescente) é dona de uma personalidade profunda cujas qualidades só vão desabrochar e fazer diferença mais tarde.

É por isso que quando ela se olha no espelho ou no vidro do metrô, o longa deixa seu humor juvenil de lado para se entregar à melancolia e à dor de saber que as respostas que a personagem procura não são encontradas na adolescência.

O design de produção reflete esse mosaico fragmentado das personalidades das três nos cenários um tanto improvisados e cobertos com vários tecidos e estampas diferentes.

É ao reconhecer essa indefinição e a imperfeição da adolescência que o filme de Moodysson se torna tão cativante e honesto.

E é na potencialização do encontro das falhas e qualidades das protagonistas contra um mundo que não valoriza muito esse resultado que elas acabam mesmo se tornando punks.  

 

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