Bardo do bar: do Sinfrônio

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acir galvao
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Quando eu cheguei ele já estava lá, vestido de Papai Noel, sentado ao balcão, visivelmente muito bêbado, conversando com um interlocutor que não existia. Ele tinha diante de si, sobre o balcão, várias garrafas de cerveja vazias e um copo de cachaça que, a partir do momento em que cheguei, o vi pedir a Rufino, um dos garçons que trabalha com Sinfrônio, que reabastecesse pelo menos três vezes. “O travesseiro que servia de barriga eu joguei fora. A maldita barba postiça também. O gorro eu fiquei com dó, vou guardar junto com o resto da roupa, que, afinal, tive que comprar, então vou guardar”, dizia, ou melhor, balbuciava, gesticulando com vagar. “Não dá mais, cheguei no limite”, prosseguiu o Papai Noel. “Ficar ali em pé seis horas a fio, naquela esquina movimentada, esse calor escaldante de dezembro, tendo que fazer o bom velhinho para as crianças, a troco de uma merreca, não dá mais”, dizia, antes de interromper o queixume com seu amigo imaginário para pedir mais uma cerveja. “É o quarto ano que eu descolo esse bico, o segundo seguido no Atacadão dos Tecidos, ali na Carijós com Paraná, sabe? Então, normalmente começa no meio de novembro e vai até depois do Natal, nem é muito tempo, mas é insuportável, não aguento mais ser Papai Noel de rua. Ainda se fosse num shopping...”, ponderou, antes de sacar um cigarro do maço e acender. Sinfrônio o repreendeu: “Ei, não pode mais fumar aqui dentro, tem que ir lá para fora”. O Papai Noel não deu trela, apenas olhou de soslaio para o dono do bar, sem dizer uma palavra, mas com uma cara de quem, transbordando autoridade, pede “não me interrompa, por favor”, e continuou, sossegadamente, ainda que meio troncho, sem se levantar do banco, a fumar seu cigarro e a desfiar seu rosário de lamentações, como se nada nem ninguém. “Foi isso o que eu disse para o babaca do gerente, o Meneses, que não dava mais, que eu não aguentava mais, que aquilo era insuportável, e joguei a barriga no chão ali mesmo, na frente dele, antes de virar as costas e sair todo maioral da loja. Vim andando de lá até aqui, joguei a barba fora na esquina seguinte. Fiquei aterrorizando com caretas e gestos bruscos de todas as crianças que encontrei pelo caminho. Precisava disso e também de tomar umas para relaxar”, disse o pobre Papai Noel.

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