Sebos e imóveis antigos preservam a memória da capital

No Centro de Belo Horizonte, primeiro imóvel registrado e primeiro sebo ajudam a relembrar a história da cidade

iG Minas Gerais | NATÁLIA OLIVEIRA |

Imóvel onde hoje funciona o Café Cultura foi o primeiro registrado em BH
LEO FONTES / O TEMPO
Imóvel onde hoje funciona o Café Cultura foi o primeiro registrado em BH

As portas arredondadas, as janelas de madeira e a arquitetura com traços coloniais criam um ar nostálgico para quem sobe a rua da Bahia e passa pela esquina com Timbiras. Em meio aos prédios, carros e toda a modernidade da cidade, um casarão do início do século passado ainda resiste com seus traços originais. Ele foi o primeiro imóvel a ser registrado no cartório de ofícios de Belo Horizonte, em 1904. Ao lado de sebos, lojas vinil e outras antiquarias, o casarão contribui para o estilo vintage de uma Belo Horizonte que ainda conserva o seu primeiro imóvel.

Comparando o local com fotos do século passado, é possível ver que todo o entorno se modificou e que apenas o imóvel permanece quase intacto. Com dois andares, atualmente ele está alugado para fins comerciais. No primeiro andar funciona um bar, uma loteria e uma Lan House, já no segundo, uma escola de teatro. A curiosidade dos clientes e o carinho com o espaço é uma das coisas que motivaram Matheus Leite, 33, a manter o Café Cultura Bar no local há três anos. "O imóvel chama a atenção principalmente de turistas. Muitos sentam pela primeira vez no bar atraídos pela arquitetura. Também tem muita gente que traz fotos de como o casarão era antigamente. As pessoas dizem que ele é muito bonito e por isso elas gostam de sentar aqui", conta.

No bar, as escadas, o segundo andar, o balcão, as mesas e as cadeiras são de madeira. Na parte de dentro do imóvel vários utensílios, como telefones antigos, máquina de costura, vinis, latas e pôsteres antigos combinam com o ar vintage da parte externa do imóvel. O casarão é um dos 713 imóveis tombados pela Diretoria de Patrimônio Cultural (Dipc) na capital mineira. “É importante que a cidade mantenha essa mistura do moderno com o antigo para preservar a nossa história”, destacou Leite.

Na mesma rua, e a poucos quarteirões do casarão, está o edifício Arcângelo Maletta, que também foi construído no século passado e é um dos espaços que mais conserva o lado vintage da cidade. Vinis, livros e filmes espalhados pelas prateleiras de madeira chamam a atenção de quem passa pelos sebos - que ficam no segundo andar do prédio. “Às vezes as pessoas vem aqui para pegar nos livros e nas capas dos discos, é um momento de nostalgia. No mundo digitalizado, isso não existe mais, então as pessoas ficam com saudade desse universo mais palpável”, conta Sebastião do Nascimento, 54, que há 10 anos mantém uma loja no prédio.

Nela, telefones antigos, televisões, máquinas fotográficas e outros utensílios usados viram artigos de venda e também de observação e admiração por quem passa pelo local. Alguns deles já nem funcionam mais, no entanto são procurados pelos belo-horizontinos para servirem como objeto de decoração. Além das lojas, os bares que funcionam durante a noite no edifício apostam em uma decoração mais vintage, com mesas de madeira, vinis na parede, sofás e geladeiras antigas. “Esse estilo de Belo Horizonte, principalmente aqui na região Centro-Sul da cidade, cria uma sensação de nostalgia e de aconchego que causa uma paz interior”, relatou André Vieira, 21, que é natural de São Paulo e está morando na capital mineira há seis meses.

Para a historiadora e arquiteta Polyanne Tavares, nos últimos cinco anos, a cidade adotou uma postura mais vintage. “O que percebo é que existe uma busca por essa retomada de hábitos antigos. Atualmente o vintage não está somente na praça da Liberdade e na Lagoa da Pampulha - áreas que mais têm imóveis antigos. Percebo que, embora esteja mais concentrada na região Centro-Sul da capital, essa atmosfera se espalha pela cidade. E junto com ela, surge uma preocupação em preservar a arquitetura de alguns imóveis e manter viva a nossa história. Esse ar vintage se tornou até moda por aqui”, destaca.

Segundo ela, a cidade deve seguir essa linha pelos próximos anos, sempre misturando a modernidade com o antigo. “A modernidade, apesar de ser necessária e positiva, acaba afastando as pessoas, enquanto o antigo traz de volta essa proximidade e deixa vivo hábitos que poderiam ser apagados pelo tempo”, completa a arquiteta.

De pai para filho. A primeira loja de livros usados da cidade ainda tem as suas portas abertas, 66 anos após ter sido inaugurada. A livraria do Amadeu, que funciona na rua dos Tamoios, é mantida pelo filho do fundador. Lourenço Carrato, 66, conta que ele tem desde clientes da época do seu pai, quanto novos - que vão de adolescentes a idosos. “A livraria já virou um patrimônio e tradição na cidade. Muita gente vem aqui, porque temos obras raras que muitas vezes não são encontrados na internet e tudo é por um bom preço, já que o livro é usado”, enfatizou.

Cliente de sebos e lojas de vinis da capital, o publicitário Eduardo Gonçalves, 28, diz que, apesar de ter aderido à modernidade, gosta de manter o hábito da leitura e da música palpável. “Eu baixo livros para ler no tablet e também faço download de música na internet, mas, para mim, é importante ter esse conhecimento e cultura de forma física. Ainda bem que podemos aproveitar disso tudo em Belo Horizonte ”, conclui o publicitário.

Em dois tempos. O resgate de uma cidade com bondes, permeada por árvores e quase sem prédios. Essa é a proposta da página no Facebook “BH de Ontem de Hoje” que compara fotos antigas e atuais de Belo Horizonte. A página surgiu da paixão do jornalista Gustavo Espósito, 31, pela fotografia e pela capital mineira. “Sempre via fotos de Belo Horizonte antigamente e sentia falta dessa comparação. Além disso, dá para mostrar a evolução da cidade e como nós cuidamos do nosso patrimônio. Quero contar um pouco da nossa história da melhor forma que eu sei, que é fotografando”, comenta.

No ar há um mês, a página já tem quase 3.000 curtidas. Os seguidores, além de enviarem fotos do início do século passado, podem também sugerir locais que eles gostariam que fosse feita a comparação. “As pessoas curtem as fotos, comentam que a cidade era melhor no passado, sem tantos prédios e tantos carros, tem um saudosismo nessa proposta”, enfatizou.

As imagens, ainda em preto e branco, são reproduzidas, principalmente, de sites e blogs da internet com autorização dos autores. Já as fotos atuais são feitas pelo jornalista, que busca um ângulo o mais próximo da imagem original. Os pontos de algumas fotos antigas são praticamente irreconhecíveis nas atuais, já em outras vemos que Belo Horizonte ainda preserva relíquias de sua memória arquitetônica. 

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