O flânerie e a arte de narrar a cidade

Escritor e pesquisador lança olhar sobre a cidade e seus personagens

iG Minas Gerais | Felipe Bueno |

Revista - Belo Horizonte, Mg. Especial. Perfil: Joao Perdigao , artista que vive o espaco urbano de uma maneira subjetiva e peculiar. Ele esta no momento fazendo uma pesquisa e escrevendo um livro sobre o viaduto Santa Tereza .  Fotos: Leo Fontes / O Tempo - 9.9.14
LEO FONTES / O TEMPO
Revista - Belo Horizonte, Mg. Especial. Perfil: Joao Perdigao , artista que vive o espaco urbano de uma maneira subjetiva e peculiar. Ele esta no momento fazendo uma pesquisa e escrevendo um livro sobre o viaduto Santa Tereza . Fotos: Leo Fontes / O Tempo - 9.9.14

João Perdigão, 36, é escritor, jornalista, pesquisador, artista independente e autêntico flânerie. Ostenta uma barba grande e exibe olhos vigilantes a tudo que ocorre ao seu redor. Do interior de Minas Gerais, da cidade de São Domingos do Prata (local onde cresceu o seu biografado, Joaquim Rolla, o famoso dono do Cassino da Urca), ele se estabeleceu em Belo Horizonte. Contudo, ainda se sente um estrangeiro na cidade. Na infância no interior, colecionava moedas e selos, e dessa brincadeira extraia narrativas e conversas com pessoas mais velhas.

Em processo de pesquisa e construção de um livro sobre o Viaduto Santa Tereza, monumento da capital mineira, edificado em 1929, e como forma de promover diálogo com pessoas que se interessam pelo tema, o escritor criou um tumblr “ouviaduto”. Assim como na primeira obra, “O Rei da Roleta - A incrível vida de Joaquim Rolla”, escrito juntamente com Euler Corradi, ele criou um canal online, com o objetivo de aproveitar um material que não encontra espaço no livro.

Após receber o convite de uma editora para pesquisar o passado do lugar, ele começou a perceber o quão rico de histórias o Viaduto Santa Tereza está povoado. “Eu senti que existe no entorno do viaduto muitas histórias paralelas, que não dariam para ser utilizadas no livro. Isso ficou na minha cabeça, e senti o desejo de contar as narrativas do presente também, então, criei um tumblr para isso”, conta.

Na visão de João Perdigão, o trabalho do escritor é muito solitário. O tumblr e blog, para ele, são instrumentos que possibilitam trocas de ideias, o contato com pessoas que têm afinidade com determinado tema. “Quem escreve sobre algo tem propriedade sobre aquilo, está com o assunto na ponta da língua. E é importante que ele discuta com outras pessoas. Muitos escritores fazem isso, e muitos mais deveriam fazer. É uma ferramenta que te ajuda no processo de escrita e traz história paralelas, que muitas vezes podem enriquecer o trabalho”, defende.

 Incursão no mundo da literatura

As histórias fantásticas sobre Joaquim Rolla, irmão da sua bisavó, eram contadas com frequência pelo pai de João Perdigão. Os causos remontam da época que o dono de um famoso cassino no Rio de Janeiro, nas décadas de 30 e 40, ainda era um nobre desconhecido, e morava numa cidade do interior de Minas Gerais. Ao conhecer Euler Corradi, surgiu o projeto de escrever o seu primeiro livro, que resgata a biografia de uma figura que viveu rodeada de celebridades, mas pouco conhecida.

O caráter empreendedor, de homem afeito aos negócios, fez com que, aos poucos, o tropeiro, que não tinha estudo e falava errado, galgasse degraus na escala social. Discreto, no seu Cassino da Urca, ele circulou ao lado de políticos e artistas da estirpe de Juscelino Kubitschek, Carmen Miranda, Orson Welles, Grande Otelo, Dalva de Oliveira, Herivelton Martins e Ary Barroso, para citar alguns.

A expertise de Joaquim é nata. Certa vez, ao ouvir no rádio que o café teria uma alta, em uma época que poucas pessoas tinham o aparelho em casa, e sabendo que um fazendeiro vizinho estava colhendo a safra do grão, ele foi até a fazenda para comprar o produto na baixa, para vender mais caro depois. O livro narra a trajetória de um homem de vida simples e, que, de uma hora para outra, obteve sucesso no ramo dos jogos, tendo, claro, como pano de fundo, a legalização e a proibição do jogo no Brasil.

Segundo Perdigão, ele era uma figura misteriosa, não aparecia muito em jornal. “Era muito raro sair algo sobre ele na imprensa. A maioria das histórias que encontrei dele foi a partir do convívio com as celebridades que frequentavam o cassino, em suas próprias biografias. E tem a parte de quando ele morava em São Domingos do Prata, que é toda construída em cima de história oral, de pessoas da família e de quem o conheceu”, diz.

As facetas do artista independente

O espaço urbano, além de palco para as experiências cotidianas de João Perdigão, é local que dá substância para a construção de sua arte. Após iniciativa de colar posters nas ruas, ele viu que o trabalho estava se esgotando, e decidiu transferir a técnica para os fanzines. A palavra fanzine deriva de fã e magazine e surgiu como alternativa para a literatura marginal.

Com o pensamento do historiador e poeta Hakim Bey, pseudônimo de Peter Lambom - “Livros podem ser tão venenosos quanto as rádios top 40, e tão falsamente objetivos quanto os noticiários. A grande diferença é que qualquer um pode produzir um livro” - João justifica a possibilidade de qualquer um poder criar sua própria revista, um fanzine.

Depois de promover um encontro de sucesso, em plena praça Sete, no centro de Belo Horizonte, para a colagem de pôsters, o artista percebeu o boom da arte de rua. “Comecei a conhecer vários artistas. Notei muita gente seguindo nessa linha, e que o trabalho ia progredindo. A partir daí, pensei em fazer um fanzine, colocar temas universais e chamar outras pessoas para participarem. Meu trabalho tem essa relação, da arte de rua que migra para o impresso. Todas essas coisas que eu faço tem uma ligação, mesmo que seja tênue”, explica. No momento, ele se prepara para lançar um fanzine com o tema funk, dinossauro e Rússia. 

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