Betim vê surgir o que seria sua primeira ‘cracolândia’

Droga é consumida em posto desativado; por causa do problema, muitos comerciantes pensam em desistir de seus negócios

iG Minas Gerais | Dayse Resende |

Na última semana, reportagem flagrou entre os usuários uma mulher grávida
Fotos Alan Lucas
Na última semana, reportagem flagrou entre os usuários uma mulher grávida

“Eles ficam aqui de manhã, de tarde e à noite. A fiscalização é esporádica. A polícia prende um grupo, mas eles voltam. E, enquanto essa situação não tem um fim, a gente finge que não vê”. É com essas palavras e em tom bastante tímido, demonstrando medo, que um morador do bairro Riviera conta à reportagem de O Tempo Betim a rotina de usuários de droga que ocupam o posto de combustíveis Chimarrão, localizado às margens da BR–381.

O estabelecimento, que está desativado há aproximadamente dois anos, dá lugar ao que seria a primeira cracolândia de Betim. Lá, diariamente e a qualquer hora do dia, é possível flagrar cenas de uma ferida exposta no Brasil, o consumo de crack, que, apesar de incomodar e ser tão visível, com pontos já tradicionais de uso e venda da droga, ainda tem personagens desconhecidos e abandonados.

Enquanto homens e mulheres, incluindo uma grávida, acendem seus cachimbos à luz do dia ou se afundam no álcool e outras drogas, a vida no local segue normalmente. “Para ir ao centro da cidade, a maioria dos moradores do bairro Riviera é obrigada a passar na rua que faz esquina com o posto. Esse local é tomado por usuários de drogas. Muitos nos abordam e pedem R$ 10 para comprar uma pedra (de crack). É uma situação degradante”, diz uma dona de casa, que pediu para não ser identificada.

Outra moradora, que também preferiu anonimato, reclama da insegurança. Ela diz que muitos usuários que frequentam o local andam armados. “A gente vive pedindo reforço à Polícia Militar. Os usuários estão no meio da rua, traficando e usando os entorpecentes em plena luz do dia. A gente finge que não vê toda essa situação, para a nossa própria segurança”, comenta.

Por causa da situação, muitos comerciantes já estão desistindo de seus negócios. “Vou devolver o ponto para o proprietário do imóvel. Não vim trabalhar no comércio para conviver com essa situação. O cheiro da droga, às vezes, chega a ser insuportável. Tenho três filhos e não me acostumo em ver os jovens nesse mundo”, justifica um lojista.

Outro comerciante orientou que nossa equipe de reportagem tivesse “cuidado” ao se aproximar do local. Segundo ele, o consumo de drogas no posto se intensificou em novembro de 2013, depois que uma grande operação realizada pelas polícias Civil e Militar em um prostíbulo do Riviera, que também era frequentado por usuários de drogas, resultou na prisão de três suspeitos. Na época, 11 mulheres foram retiradas do local e levadas para centros de assistência social. A operação teve o apoio do Corpo de Bombeiros, da Guarda Municipal de Betim e de uma equipe da Secretaria de Assistência Social do município.

“Começamos a perceber que o fenômeno migra. Se sumiram, não necessariamente deixaram de usar droga, mas deixaram de fazê-lo ali. Isso impõe um desafio aos serviços, que é reconstruir as referências”, diz o subsecretário de Políticas sobre Drogas de Minas Gerais, Cloves Benevides.  

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