Não custa mudar de assunto

iG Minas Gerais |

Israel Pinheiro, homem público mineiro da velha-guarda, probo e honrado, governou Minas Gerais. Quando JK deu os primeiros passos para transferir a capital federal do Rio para Brasília, começou com a criação de uma empresa pública a que atribuiu as funções de erguer, no Planalto Central, a nova sede da capital da República. Ato contínuo, nomeou o então deputado federal para presidir a empresa com todas as responsabilidades de levantar, longe do litoral, o centro nervoso da nação. Assim, cumpriu-se o mandamento, desde o nascimento da República. Com muito mérito, o presidente da Novacap levou a termo a sua missão, e recebeu o reconhecimento público, mas teve a contrapartida de, por parte da oposição, receber acusações exacerbadas de malversação do dinheiro público. Ouviu o saudoso mineiro, com paciência e espírito tranquilo, as imprecações mais injustas. Impaciente às vezes com as aleivosias, sempre que alguém, geralmente amigo, lhe dava conta de notícias que o acusavam, Israel apenas dizia: “Esse assunto já fedeu”, calando-se a seguir, em atitude de quem simplesmente tinha a consciência limpa que lhe permitia dormir o sono dos justos. Esse exemplo, que se servia de um verbo definitivo, mas censurado por almas sensíveis, o acompanhou até o fim da vida, logo após transmitir a cadeira de governador de Minas, como o fez seu ilustre pai, João Pinheiro, na primeira República. Trazendo esse pedaço da história para os anos mais recentes da vida pública brasileira, pode-se afirmar que tudo mudou no cenário brasileiro – sublinhando exceções no bom sentido –, porém registrando que a administração pública, tomada no sentido mais amplo da sua abrangência, só de raro em raro forma entre nós cidadãos dessa estirpe. Modelos assim estão em desuso. Vai-se o futuro do país, cada vez mais, traçando-se com dirigentes saídos dos campos onde nascem e começam a exercitar uma vocação cuja natureza cresce como o rabo do cavalo. Infelizmente, material humano para isso não tem faltado. Talvez um milagre da multiplicação do mal? Certo é, pelo noticiário jornalístico que se confirma nos órgãos do Estado, que a sujeira se expande, hoje muito mais do que ontem, numa parceria público-privada de caráter demoníaco, cuja trama mira o assalto do poder público e cujo resultado primeiro é a indignação dos cidadãos de bem, que, aos poucos, pelo desalento da impunidade, vão se transformando em puro nojo e em estado de verdadeira letargia. O Brasil precisa mudar foi o tema da ladainha cantada por todos os cantos percorridos pelo candidato Aécio Neves. Não se pode dizer que, ao fim e ao cabo, a frágil vela se extinguiu sem atingir o fim do poço. A diferença foi ínfima, apesar de todos os instrumentos do diabo usados contra a sua candidatura. Mas uma consequência que pode virar a situação, atingindo os polos da legitimidade, me parece inegável. Derrotado, e pelo estado moral em que ficaram os destroços da nave, o candidato da oposição transformou-se em solução mais legítima do que a vitória artificial.

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