“Noblesse oblige”, ou é a corrupção que exige?

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DUKE
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Retorno ao professor e antropólogo Roberto DaMatta, que, recentemente, se confessou “um velho tentando não perder a cabeça de menino” – um desejo, com certeza, não só dele, mas de todos os integrantes da nossa geração, assustados com os rumos que pode tomar o nosso país, envergonhado pelo megaescândalo da Petrobras. Em seu último artigo, em “O Globo” de 3.12.2014, DaMatta nos lembra a expressão “noblesse oblige”, que já foi bem mais presente em nossas vidas, mas hoje quase desapareceu: “Governar não é possuir e trapacear, mas administrar a chamada ‘coisa pública’ com ‘noblesse oblige’. Com um máximo de honestidade e consciência de bem servir, e não de ser servido. O que hoje ocorre no Brasil, dono de uma jamais vista ladroagem, não é mais a nobreza que obriga, é a corrupção”. O artigo de DaMatta foi publicado na quarta-feira da semana passada. Tudo indica, então, pelas regras de fechamento da editoria de Opinião, que o artigo chegou ao jornal na segunda-feira ou, no máximo, na terça-feira, véspera da acareação, na CPI do Senado, entre os ex-diretores da Petrobras Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró. Ambos, a propósito, absolutamente díspares em seus depoimentos... DaMatta, portanto, não poderia ter lido nem visto ou ouvido, antes de se referir em artigo às obrigações da boa ética, o que disse Paulo Roberto Costa. E foi só por isso que manifestou dúvida no seu final. E o que disse o responsável pela delação premiada à CPI do Senado foi apenas isto: “O que acontece na Petrobras acontece no Brasil inteiro, nas rodovias, nas ferrovias, em portos, aeroportos, hidrelétricas”. Dois ou três dias depois, o juiz federal Sérgio Moro, que conduz a operação Lava Jato – um praticante olímpico, sem dúvida, da velha “noblesse oblige” –, admitiu a existência de indícios fortes de que esses mesmos crimes ocorrem muito além da Petrobras. Moro não escondeu sua perplexidade quando, afinal, tomou ciência da planilha de dados sobre 750 obras, “nos mais diversos setores de infraestrutura do país”, apreendida com um dos principais delatores, Alberto Youssef. Junte-se o que disse o juiz Sérgio Moro – sobre a capilaridade da corrupção em nosso país – à afirmação que fez à CPI do Senado o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e teremos, à saciedade, material explosivo com força capaz de comprometer as nossas instituições democráticas, ainda em processo de consolidação. Por outro lado, ao afirmar que a compra da refinaria de Pasadena é de responsabilidade exclusiva do Conselho de Administração da Petrobras, Costa ainda expõe sua presidente, Dilma Rousseff, que, na época, ainda exercia, também, o cargo de ministra de Minas e Energia. Na verdade, leitor, juridicamente, a alegação, já feita pela presidente, de que não lhe foram encaminhados os elementos necessários à decisão do Conselho que então presidia, não conta ponto a seu favor. Ao contrário. Se isso de fato ocorreu, competia a ela, simplesmente, procurar se informar para, depois, decidir corretamente. Confio, plenamente, no futuro do nosso país. Confio na consolidação paulatina de uma sociedade realmente democrática. Mas, hoje, não posso fechar os olhos à dura realidade a nossa porta: estamos sentados sobre um vulcão que pode explodir a qualquer instante. Pois nunca (agora a expressão se justifica!), na história deste país, agentes públicos se transformaram em ladravazes tão atrevidos e vorazes!

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